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É a escola a única instância educadora na sociedade contemporânea? É legítimo impor a toda a sociedade um único modelo educacional? Em pleno século XXI, é impossível pensar alternativas sérias ao modelo escolar? O que estão fazendo aqueles que tiveram a coragem de educar seus filhos fora da escola? Como pensar e implementar um processo sustentável de educação fora da escola?

Estas e muitas outras perguntas tem neste blog um espaço para construir respostas. Educar os filhos na sociedade do conhecimento é um desafio que supera de longe o modelo escolar...é urgente dedicar-nos coletivamente a consolidar essas alternativas.
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quinta-feira, 1 de março de 2012

O futuro do educador


Publiquei no facebook (https://www.facebook.com/profile.php?id=1316571587) a seguinte notícia:

Projeto prevê possibilidade de educação básica ser feita em casa Ver: http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/EDUCACAO-E-CULTURA/409783-PROJETO-PREVE-POSSIBILIDADE-DE-EDUCACAO-BASICA-SER-FEITA-EM-CASA.html

O fiz porque na notícia em formato digital há uma enquete que nos permite dizer se somos  a favor ou não. Me surpreendeu o fato de que mais de 60% dos votantes eram a favor.  De outro lado, muito rapidamente, Thiago Chaer  me perguntou: "Edilberto, diante dessa possibilidade, como você vê o futuro dos professores? Quais mudanças vão ocorrer aqui no Brasil?" Vamos lá..não é todo dia que alguém nos faz essa pergunta.  No calor do diálogo lhe respondi o seguinte:

"Thiago, obrigado pela sua pergunta. Vejo para os professores um futuro no qual, fora das atuais e históricas pressões a que vivem sub-metidos, poderão oferecer serviços os mais diversos em todos os âmbitos da sociedade, tanto a estudantes particulares como a instituições de todo tipo e a empresas. Poderão dedicar seu tempo a ser e fazer o que mais gostam que é acompanhar o aprendizado efetivo de crianças, adolescentes e jovens. Hoje isso não é possível por ter que estar cumprindo com as obrigações que o sistema lhes impõe".

Mas é claro que um tema como esse, o futuro do professor merece muita reflexão.

Primeiro, porque ainda que dizem por aí que a profissão mais antiga é a da prostituição, a verdade é outra, a mais antiga é a de educador. A final, o fato é que desde que o processo evolutivo nos transformou no que somos, o ser humano precisou aprender da geração anterior praticamente tudo para sobreviver. O primeiro Adão e a primeira Eva foram por tanto os primeiros educadores.  E desde então sempre educar e ser educado foi necessário. A história humana só alcançou o patamar atual porque uma geração após outra demandaram aprender, e sempre houve novidades para ensinar.  E outro fato, toda geração que nasce, precisa iniciar do zero. Se por acaso decidíssemos para de educar à nova geração, privá-la totalmente do acúmulo alcançado pela civilização e as culturas, essa geração seria tão ignorante como a primeira. Portanto, educadores sempre serão necessários.

Foi muito rápido na história que se instaurou a disputa entre dois tipos de educadores: os profissionais e os naturais. Estes últimos são de fato os mais antigos. São os pais!!!. E destes o lugar mais imediato corresponde a mãe. Ela, a mãe, desde sempre, ao longo dos séculos foi a primeira  educadora. Até muito pouco tempo atrás foi assim. As mães transmitiam de primeira mão o legado mais íntimo e profundo da cultura às suas crias. A linguagem materna, a estética, os axiomas profundos da cultura, a estática e a moral. Aos pais lhes correspondeu transmitir os elementos do mundo da economia, os ofícios e da política e  a arte da guerra. Isso entre muitas outras coisas, mãe pai nos ensinaram desde que somos humanos.

Quando as culturas amadureceram e deram passo às civilizações, e praticamente até o presente, se instaurou uma disputa entre os nossos educadores naturais, nossos pais, e os professores especializados.  Estes tinham acumulado uma quantidade específica de conhecimentos que muitas vezes não fazia parte dos conhecimentos adquiridos e transmitidos pelos educadores naturais. Para começar porque tais conhecimentos implicavam a escrita, a leitura e a matemática. Com o tempo foram revestidos de um manto sagrado e assim os seus detentores adquiriram uma distância intransponível a respeito de todos aqueles que careciam de tal domínio.

Foi assim com os mágicos, os sacerdotes. os filósofos, os teólogos e na última parte da história, com os cientistas. Todos eles de uma forma e outra se distanciaram dos chamados leigos e se organizaram de maneira a tornar-se absolutamente necessários. Os Estados os protegeram e ao legitimá-los terminaram por deslegitimar  tanto os educadores naturais quanto os seus saberes. Esse conflito atravessou a história das civilizações, ao ponto de chegarmos a acreditar que para educar outra pessoa é necessário ser um especialista.

Com o crescimento do conhecimento científico e a economia capitalista, a idéia de escolarizar  toda a população se tornou consensual.  A escola e por tanto, o professor especialista alcançaram um caráter universal. O educador natural, foi completamente relegado, e na medida em que o paradigma escolar se consolidou, a idéia de que só é possível educar dentro da escola tornou-se absoluta. A idéia de que o estudante chega a escola completamente ignorante parece desde então uma verdade incontestável. E ela é uma crença geral dentro das escolas. Se chega ignorante a escola.

A escola como a conhecemos e o papel do professor dentro dela estão ameaçados. Eles não sobreviverão à história. A velocidade com que se produz conhecimento, as transformações tecnológicas, a emergência de uma estrutura revolucionária de comunicação de informações, colocaram  a escola e ao professor tradicional diante de um xeque mate sem recursos possíveis.

Porém, o fator fundamental será a insatisfação generalizada que o sistema escolar provoca tanto nos pais quanto nos estudantes. Enquanto as novas gerações são demandas cada vez mais a aprender, as escolas e os professores se esforçam apenas, e nos melhores casos, para transmitir informações, revisar conteúdos, controlar disciplinarmente o comportamento dos estudantes, produzir grandes quantidades de dados estatísticos com notas e presenças. Por mais que se esforçam apenas alcançam a ser instancias burocráticas (públicas ou privadas) de certificação.

Enquanto isso, contingentes enormes de crianças, adolescentes e jovens, e seus pais, se perguntam como fazer para conciliar suas urgências de aprendizagem com as demandas de um sistema que se demonstra surdo e mudo. 

A procura por alternativas a esse sistema vem aumentando claramente nas últimas décadas. O homeschooling, o unschooling, vem de encontro às possibilidades da nova estrutura tecnológica e comunicacional. Na medida em que deter informação especializada deixou de ser uma prerrogativa de poucos, na medida em que enormes quantidades de informação de todos os tipos de conhecimento está disponível na internet e de maneira gratuita, o papel da escola e do professor especialista se tornaram desnecessários. Pouco a pouco fica claro que o modelo escolar e seus atores não conseguem mais adatatar-se aos novos tempos.  

Porém educar as novas gerações continua sendo necessário. Eles precisam ainda aprender o que seus educadores naturais lhes ensinavam. Para isso não existe nova tecnologia que os supere. O pai e a mãe continuam vigentes como atores fundamentais da educação que da base para a vida. E cada vez mais, eles os pais, devem servir de ponte para o conhecimento especializado.

Este, a diferença de qualquer outro tempo na história, não está mais concentrado em mosteiros ou castelos, nem sequer em bibliotecas. Muito menos em instituições. Hoje o conhecimento circula, se desconcentra, viaja, se difunde a uma velocidade incrível e ocupa todos os lugares no mundo. 

Num contexto como esse o papel do educador especialista tem que ser outro. O educador deve sair do seu confinamento escolar e transitar pela cidade e pelo campo, aonde quer que demandas de conhecimento sejam feitas. Ele não precisa mais escrever no quadro ou ditar o conteúdo palavra por palavra. Precisa sim saber conectar-se, transitar pelos canais por onde o conhecimento circula em abundância. Não precisa transmitir o conhecimento toda vez que hoje ele é transmitido pela estrutura tecnológica global. 

O que um professor, hoje deveria estar fazendo, facilitar o encontro entre as necessidades de conhecimento das novas gerações, das comunidades, das empresas, das instituições,  e os lugares onde esse conhecimento se transmite, se produz, se renova. Hoje, o professor, deve dedicar-se ser um animador,  um instigador, um inspirador.  Deve ir a todos os lugares, as praças, aos parques, as empresas, as ruas, às instituições públicas e privadas, nos hospitais, nos laboratórios, aonde quer que tenha pessoas de qualquer idade querendo aprender algo, o que quer que seja.  Deve entrar nos lares. Interagir com os pais, com os filhos de todas as idades, com as vizinhanças. 

A escola confinada e pequena mesmo que gigante, não tem mais espaço na história. O professor dentro dela também acabou. Mas o educador no mundo-escola, o educador na vida das pessoas reais...esse tem uma história para construir. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Compulsão a Educar

Educar em casa é um grande desafio. Um belo desafio. Primeiro porque todos os envolvidos passam por um processo poderoso de auto-conhecimento. Segundo porque nesse processo é possível ver elementos que podem implicar mudanças radicais na nossa maneira de sentir, pensar e agir no mundo.  De fato nem tudo o que encontramos nessa caminhada é bom, maduro, desejável. Afinal, temos que reconhecer que não somos seres perfeitos. Porém, reconhecer algumas destas questões negativas é muito importante na hora de empreender a trilha da desescolarização.

Um desses elementos que precisamos reconhecer é a existência de características patológicas na configuração psicológica do próprio pai-educador. Pais movidos por medos excessivos frente ao mundo, ou por axiomas ideológicos excessivamente enraizados, pais com urgências de controle exageradas, ou, inclusive pais motivados por uma necessidade desproporcional de proteger seus filhotes, podem apresentar motivos inconscientes que os levam a desenvolver práticas educativas repressoras. 

Tirar filhos da escola porque nos dá a sensação de que a casa é mais segura contra determinados perigos (a violência do mundo, a falta de religiosidade, a liberalidade mundana, etc.), pode ser um sintoma de que algo na nossa constituição adulta não está bem resolvido. Isto pode manifestar-se claramente ao idealizar a casa como uma forma de nicho separado do mundo, um ninho de salvação, um lugar para cultivar uma eterna inocência, um espaço para afastar-se do mal. Qualquer uma desta premissas inconscientes torna a casa-escola uma prisão e a criança a viverá como uma experiência de repressão na qual o pai e ou a mãe se colocam como continentes absolutos. Uma geografia afetiva e cognitiva intransponível.

Uma manifestação concreta desse tipo de funcionamento se dá na defesa da educação em casa aliada ao direito da "disciplina física" nos casos de desobediência por parte dos filhos. Em outras palavras, na defesa do castigo corporal e psicológico como instrumento educacional. 

Tais atitudes refletem apenas um limite (psicológico e cognitivo) nos pais que as utilizam e dependendo da intensidade, até uma patologia que certamente está ligada à infância desses pais-educadores. Cabe a pergunta: quais são os danos na psicologia do pai educador que utiliza o castigo físico ou psicológico como uma forma de "educar" a criança? 

Temos que observar a nos mesmos enquanto pais-educadores. Perguntar-nos: como se manifesta em mim a urgência de corrigir o que entendo como um erro ou um desvio no modo de agir, nas escolhas, nos desejos do filho que estou educando em casa? Que sentimentos afloram nos momentos que entendemos como críticos? Por que um erro me ofende tanto? A irritação que sinto frente a determinados momentos do filho, é freqüente? É excessiva? Quais são minhas reações? Bater? Gritar? O que sou capaz de dizer e fazer nessas ocasiões?

Existem estudos sobre a psicologia do educador nos quais esta problemática é abordada. Neles  o excesso diretivo, a rigidez perfeccionista, o excesso de limites, de normas, a necessidade de que os filhos-educandos aceitem integralmente todos os valores, crenças e ideologias dos pais-educadores, e claro, o recurso à violência física e psicológica para alcançar estas metas e ou corrigir os supostos desvios, é denominado de Compulsão a Educar.

As relações que emergem nas famílias nas quais o fenômeno da compulsão a educar aparece como componente das relações entre pais e filhos, não são em nada diferentes das relações que se estabelecem entre estudantes e escola, entre professores tradicionais e estudantes. Nos dois casos as relações são dicotômicas, negativas e verticais. Nos dois casos as crianças ficam no papel de vítimas de um poder que não conseguem superar e com o qual não há diálogo possível. O resultado será no melhor dos casos um comportamento mascarado no qual a criança se adapta respondendo às demandas do adulto de maneira a não provocar sua ira e assim evitar o maior número de castigos. Internamente irá acumulando raiva, negação, os quais espera secretamente poder extravasar.

As práticas da desescolarização por tanto, atingem a pais e estudantes.  Os pais terão de aprender a aceitar e partilhar ritmos, percepções e condutas dos seus filhos. Terão que libertar-se de suas dores de infância, e admitir internamente a fluidez e a efervescência  das crianças. Estas, terão que alcançar graus elevados de autonomia, terão que aprender a correr atrás do que desejam aprender, estabelecer seus próprios ritmos e viabilizar suas metas de aprendizagem. Terão que aceitar que são eles os que comandam o próprio processo de aprendizagem e não outrem, quem quer que seja.

Sim, vista assim, a desescolarização é um caminho de cura.!

Ler: Infância A Idade Sagrada. Anos sensíveis em que nascem as virtudes e os vícios humanos. Evânia Reichert.  2008.



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Manual de sobrevivência para unschoolers

Cada vez mais famílias percebem que é absurdo manter o padrão de negligência adotado pela imensa maioria diante do que ocorre com a educação dos filhos dentro das instituições escolares públicas e privadas.  Isso significa que a cada novo ano escolar mais pais e mães estão assumindo de fato a responsabilidade pela educação dos filhos. E assim, são cada vez mais as crianças que estão sendo desescolarizadas. Esse é um momento muito...muito crítico. É o momento de sair do aquário. De descobrir que é possível navegar na imensidão do oceano do conhecimento e não naufragar. Mas a verdade é que muitos dos que se aventuram terminam naufragando, justo no início.  

Por isso ficamos pensando em algumas dicas de sobrevivência colhidas da experiência vivida com os nossos filhos e de muitos outros unschoolers amigos e ou desconhecidos. Vai aqui uma tentativa de um manual de sobrevivência para unschoolers.  O ideal é que possamos complementá-lo permanentemente com a participação de todos os que hoje vivemos processos de desescolarização...assim pois, serão bem-vindas todas as idéias, dicas e questões que possam enriquecer este instrumento de navegação para principiantes!!!





1. Todo mundo caminha no mesmo sentido e eu....não.

A gente precisa de  sentido em tudo que faz. E foi por isso que uma hora arranjamos coragem e tiramos o filho da escola, por que essa instituição e todos os seus métodos, processos, regras e modelos, não faziam mais sentido. Quando um ser humano insiste em trilhar um caminho que não faz sentido, ele esta perdendo tudo o que o torna especificamente humano. Porém, ocorre que uma vez fora da escola...a percepção que se tem é que o mundo inteiro está indo num sentido determinado e nós não. Isso pode resultar algo difícil de processar.  

2. Não evite a queda. Navegue nela.

A sensação, por tanto é de queda. De perda. Em muitos casos pode ser terrível. Realmente angustiante. Mas, por incrível que pareça esse é um bom sintoma. Significa que você iniciou o processo de desinstitucionalização. Isso não é para muitos. Você estava parado na beira do rio segurando num poste imóvel, agora se soltou e o fluxo d'água o está levando. Percebeu? É você que está se movendo, e não o poste que segurava...embora a sensação seja a de que o poste vai a toda velocidade e você está perdendo. Evite querer voltar para o poste. Vire-se e nade a favor da corrente de água... agora você tem a onde ir,  agora você pode escolher, agora você perdeu a ancora e está navegando...no mar do conhecimento. 

3.  Você não está louco. Apenas recém acordado.

De lá do poste, todos os que nele se seguram, vão gritar desesperados. Acham que você vai se afogar. Acham que você se enlouqueceu e que fez isso inconscientemente. O barulho vai ser grande...tão grande que lhe faz sentir medo e confusão. São tantas vozes falando ao mesmo tempo, dizendo que você está errado, que vai ser sempre muito difícil não ter aquele momento de desespero..."e se estou errado?".   

4.  Competir com a escola é como querer vencer o Titanic.

A tentação que toma conta de muitos de nos que iniciamos este processo de desinstitucionalização é a de querer competir com a escola. Então, logo vamos nos aparelhando com livros de texto, currículo do ano puxado de algum lugar com autoridade, melhor se é de um especialista, e começamos a ler tudo e a comparar tudo e  nos sentimos  pequenos diante de todo o que a escola faz, e faz muitas coisas que não temos nenhuma condição de fazer.  Ela é um Titanic...e nem ela nem nós percebemos que ali na frente tem um ice berg gigante. Nos parece que pulamos do barco na hora errada e que agora vamos ficar ali perdidos no meio do oceano sem fôlego para a grande empreitada....Não sabemos que um pouco mais adiante o Titanic afunda. 

5. É isso, você quebrou o vidro.

É verdade...você quebrou o vidro. Isso faz barulho, pode até cortar, mas, é assim mesmo quando a gente quer olhar e ver com os próprios olhos o que ocorre além das fronteiras que sempre nos obrigaram a respeitar como sendo intransponíveis. Você rompeu com um paradigma vigente. Poucas vezes na vida a gente faz algo assim. Imagine  Colombo indo além do horizonte conhecido...o que ele encontrou foi que não existia abismo nenhum esperando para devorá-lo.  E sim um mundo novo de possibilidades. 

6. Pronto, agora está matriculado na escola das incertezas.

Você vai ver os olhos do seu filho perguntando a cada dia...e agora? E agora? Como Colombo, você não vai saber responder todas as vezes. Vamos continuar até encontrarmos terra firme, ele respondia. Mas como você sabe que vai ter terra firme? Perguntavam seus marujos. Eu não sei, respondia ele.    Sócrates já chamava a atenção para o fato de que todo aprender se fundamenta no reconhecimento de que nada sabemos. Por tanto, é nesse ponto, que estamos melhor situados para iniciar a caminhada!!!

7.  Ei!!! lembre de trocar o óculos velho!!!

Você agora é um pai interessado em que seu filho cresça aprendendo o que lhe interessa. Então, não olhe para ele com a mesma lente que usa a instituição escolar.  Se você insiste em ser o Professor Universal dele, ou então em ser você uma escola completa...lamento...você está usando o mesmo óculos.  Talvez precise perceber que sua preocupação é mais a necessidade de controlar mais de perto seu filho(a).  É hora de parar e pensar consigo mesmo: eu quero dar ao meu filho(a) liberdade para aprender ou quero apenas ter o controle absoluto sobre sua vida. Você vai saber a resposta em um segundo. Se a resposta é a segunda...comece o processo de desescolarização por você mesmo. Jogue fora seu óculos velho!!

8. Se tudo que faz da errado, então está certo

As instituições nos tornaram estúpidos.  Caminhamos sobre os trilhos que elas nos oferecem. Olhamos através das lentes que elas nos impõem. Elas se organizam para que nos mantenhamos dependentes. É assim em todas as áreas da vida. As instituições nos ensinaram a depender de especialistas para todos os aspectos da nossa vida, a saúde, o direito, a moradia, os sentimentos, e também, é claro, para a educação. Então, quando quebramos o vidro do aquário....é isso mesmo, fazemos tudo errado.  Somos patéticos as vezes. Mas que ótimo...é nesse mesmo instante que começamos a aprender!!!! Porque tenha certeza disso: Não se desescolariza um filho sem ter de aprender junto com ele tantas e tantas coisas!!!

9. Esqueça o castelo de areia

A escola é como um castelo de areia. Vem uma onda, sobe a maré e...tchau!, lá se vai o nosso castelo. Mas o que queríamos com a educação dos nossos filhos não era bem isso! Queremos bases sólidas, fortes, que lhes sirvam para a vida toda. Certo? A escola é como um bem de consumo...é obsolescente. E nos buscamos o que permanece...inclusive aquilo que os ajudará a ser nos tempos de mudanças. Então, é simples...vire-se procure terra firme e comece a construir no espírito deles uma fortaleça feita de conhecimento...será o que eles realmente aprendam o que lhes permitirá ir pelo mapa infinito da vida!!.

10. Calma...primeiro aprenda a nadar

Uma vez fora da escola...o primeiro a ser estudado, aprendido, trabalhado é....tudo aquilo que nos permita desinstitucionalizar-nos e sentir-nos bem. Conquiste um lugar de certeza dentro de você e na alma dos seus filhos. Esqueça por algum tempo o corre-corre atrás de conteúdos...o primeiro tempo dedique-o a aprender de você, de seus filhos, de como as instituições permearam suas vidas, dos medos que tudo isso causa, da incerteza que dá, do tempo que agora tem, da perda de rotinas, da delícia de ter todo esse tempo... e sobre tudo....a de reencontrar o desejo de aprender. 

Lembre, a escola está apenas num lugar e o conhecimento está em todos.





sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Herdeiros de Sócrates




A tensão entre educar a partir de instituições ou educar a partir da vida teve alguns dos seus episódios já na Antiguidade. Resulta interessante que esse cenário seja justamente o século V a.C., no qual floresceu o que hoje conhecemos como Grécia Clássica e nela, a figura imortal de Sócrates.

Nesse cenário histórico, Atenas está a alcançar seu momento dourado.  Se ampliam suas relações econômicas, sua prosperidade material e  cultural. A velha constituição aristocrática é substituída pela constituição democrática.  É o tempo de Péricles e da emergência do estado democrático.

Tudo isso impôs exigências à educação. Na esfera política, passou-se a reclamar da educação maior liberdade individual, de pensamento e de ação. Por outro lado, impo-se a necessidade de um treino ou habilitação do individuo para aproveitar as oportunidades sem precedentes que se ofereciam para o engrandecimento e realizações pessoais.

Na sociedade ateniense, ainda orientada pelo velho regime, não havia meios para ministrar uma educação que proporcionasse ao individuo condições de êxito pessoal. Toda a educação existente preparava apenas para o exercício cívico. Nesse contexto, apareceram os sofistas, uma forma nova professores profissionais  que deram inicio um modelo novo para a época: Os sofistas estabeleceram instituições de ensino superior que funcionavam de um modo análogo às escolas elementares. Tal como os vários professores de mousiké e gymnastiké, os sofistas lecionavam em casas, palaestrae, gymnasia ou stoas privados. Estabeleceram disciplinas e currículos. E cobravam caro pelos seus serviços e especialidades.

A palavra phrontistérion (“Pensadoria”) dada por Aristófanes a uma escola dirigida por sofistas é o reconhecimento de uma instituição ou pró-instituição. Um sofista e os seus pupilos formavam um grupo com identidade coletiva, se não corporativa, que personificava um ideal que dava regularidade a um aspecto da sociedade (educação). Assim, Os sofistas, estabeleceram os princípios de uma nova fase institucionalizada da educação superior.


Nesse contexto Sócrates marcou um contraponto ao movimento sofista.  Ele mesmo na sua juventude foi aluno deles. Porém, uma vez assumido como filósofo na acrópole ateniense, estabeleceu sem dúvida, um importante número de diferenças entre seu modo de ensinar e o dos sofistas do seu tempo.

Segundo Platão e Xenofonte, Sócrates não desenvolveu formalmente um currículo como os sofistas fizeram. Estes formaram escolas temporárias, separadas da vida da cidade e introduziram no sistema da educação antiga um segundo nível de educação formal cujo conteúdo não era necessariamente uma instrução mais avançada nos assuntos normais da escolaridade elementar, mas oferecia uma variedade de temas que diferiam de acordo com a visão educativa de cada sofista.

O ensino de Sócrates foi de fato uma “reação contra” os sofistas e a favor  de uma educação  que acontecesse através da associação (sunousia). Isto é,  em procurar que as associações de jovens na cidade fossem válidas para o seu desenvolvimento moral e incutir maiores preocupações intelectuais na existência de uma pessoa no seu dia a dia.

Tal como é descrito nos Diálogos de Platão e nos trabalhos de Xenofonte, a imagem fundamental é Sócrates caminhando em Atenas, questionando e ajudando as pessoas, na sua vida diária a pensar acerca das suas concepções, crenças e suposições básicas. Em contraste com os sofistas, Sócrates parece ter-se mantido mais próximo da noção da educação antiga, segundo a qual, depois do estádio elementar de instrução, um jovem era educado, não em qualquer tipo de escolaridade separada da cidade, mas informalmente, na vida da própria cidade.

Xenofonte relata-nos o seguinte: Sócrates saía sempre de casa ao amanhecer. Ainda manhã cedo, ia ao peripatoi e ao gymnasium. Quando o Àgora estava repleto, podíamos encontrá-lo lá. No resto do dia, estava sempre no local onde pudesse associar-se (sunesesthai) com o maior número de pessoas possível.

Assim, poder-se-ia dizer que Sócrates, ao contrário de muitos sofistas, fundou uma escola em sentido amplo, como uma associação de interesses comuns vinculados à realidade vivida dos participantes. O método socrático se tornou um modo compartilhado de produzir conhecimento por parte dos socráticos.

O Sócrates histórico se posicionou frente ao estabelecimento das instituições educacionais atenienses. Ele se recusou, deliberadamente, a fundar qualquer tipo de escola secundária que fosse separada da vida da cidade.

Ao contrário, Sócrates estava convencido que a sunousia, no contexto da vida na cidade, era a base para uma educação superior. O dialogo Téages, ainda que não seja de Platão, providencia uma indicação adicional de que Sócrates não deu instrução num contexto privado separado da vida da cidade.

Outro filósofo da antiguidade que criticou duramente as práticas sofistas foi o cínico Diógenes. Ele era hostil em relação à educação institucionalizada.

Como Sócrates, Diógenes recusou comprometer o seu ensino com qualquer lugar ou tempo, e quaisquer seguidores que tivesse não tinham identidade coletiva como um grupo de pupilos.  Famoso é o seu passeio pelo mercado da cidade onde em pleno dia ia iluminando seu caminhar com uma lâmpada. Quando lhe perguntavam para que  usar a lâmpada à luz do dia, ele respondia: “para ver tudo do que não preciso”.

Todas estas evidências apontam para a mesma conclusão. As interpretações dadas por Platão e Xenofonte sobre as práticas socráticas confirmam um aspecto fundamental do seu legado histórico: Sócrates era contra a tendência sofista de institucionalizar a educação.

Era por tanto Sócrates um precursor da idéia de que o conhecimento e a consciência fluem melhor  no cenário aberto do mundo, na cidade, na rua, dentro de casa, no trabalho, no comércio.  Ali onde a vida se realiza, onde cada um cria sentido e faz história. Isto é, a vida desescolarizada!!!!



terça-feira, 22 de novembro de 2011

Derreter as escolas

Na história, "tudo que e sólido desmancha no ar". Mais até chegar ali todo paradigma tende a consolidar-se...solidificar-se. E nesse movimento vive uma certa sacralização. Na altura de sua máxima consolidação histórica, se oferece como algo eterno, incontestável, sagrado, absolutamente verdadeiro. É isso que faz com que se construam consensos que protegem, conservam, mantém os fundamentos e estruturas do que se entende como paradigma dominante. Consensos que se tornam leis, obrigatoriedades, forças maiores.  

Roma era para ser eterna. A igreja católica medieval se entendia a própria eternidade. A Alemanha Nazi também teve essa pretensão. Porém não resistiram ao teste do tempo. Hoje o capitalismo e a escola se nos apresentam com as mesmas premissas.

Um dos muitos sintomas do apocalipse de um paradigma e a sua incapacidade para responder à complexidade que todo novo tempo impõe. A crise, antes presente de tempos em tempos, passa a ser um elemento do quotidiano. É o que vivemos hoje com a escola e com os sistemas econômico e político, os responsáveis do modelo escolar que vivemos no mundo, é isso inclui socialismos diversos. 

Outro sintoma é a incapacidade de assimilar positivamente as mudanças históricas. Assim o que antes foi elemento de vanguarda, hoje é um elemento retardatário. Um mínimo de senso de realidade nos permite perceber: 

 * que o consenso atual entorno da escola não tem fundamento histórico, porque apresenta a instituição escolar como a única e absoluta instância legitima de educação, quando é apenas uma e bastante ineficiente. 
 * que a escola, pública ou privada, se tornou estática, conservadora, sólida, que tende a caminhar para trás num tempo em que as mudanças pulsam em todas as ordens da vida social. 
 * que mesmo as tentativas de reforma, apenas conseguem propor a volta a atras, a reinstalação de estratégias que já foram contestadas. 

Desmanchar a instituição escolar é preciso. Derreter tudo que nela a torna compulsivamente lenta, pesada, reativa. Quais são esses elementos? 

1. Derreter sua estrutura disciplinar. Todos os elementos que fazem da escola uma instância de controle do corpo e da mente do estudante e do professor. Derreter o dispositivo comportamentalista é fundamental. Ele torna estudantes e professores participantes de um jogo de poder que destrói toda possibilidade de alcançar personalidades autônomas, alegres, interativas. 

2. Derreter a estrutura curricular. O modelo cartesiano, que divide o conhecimento em compartimentos separados, subdivididos, especializados, incomunicados deve ser superado. Ele impede a aprendizagem e destrói a possibilidade de gerar indivíduos e coletivos capazes de ser criativos. Urge uma visão holística integradora e transdisciplinar.

3. Derreter a estrutura quantitativista. A idéia de que democratizar a educação significa aumentar o número de estudantes por sala, o número de horas dentro da escola, o número de assinaturas, o número de avaliações. A obsessiva construção de estatísticas robustas nada disse a respeito de aprendizagem efetiva, de consolidação de valores, de relações humanas, de abertura frente aos problemas reais das crianças, dos professores, da sociedade. 

4. Derreter a estrutura que privilegia a competição sobre a colaboração. O modelo que impele as crianças à competição como caminho de superação. A idéia evolucionista, anacrônica e cientificamente errada, de que os mais fortes serão os vencedores. Essa ideologia gera preconceitos, exclusão e alimenta diversos tipos de violência. Apenas uma minoria pode ser considerada vencedora enquanto a maioria deve aceitar que é desadaptada e incapaz. 

5. Derreter o modelo de avaliação. Concentrado exclusivamente na quantificação de acertos e erros. Incapaz de olhar para o processo, as necessidades e capacidades de cada indivíduo. Centrado na memorização, na repetição. Gerador de dados incapazes de aproximar-se do que efetivamente a criança aprendeu, quer ou precisa aprender. Eliminatório. 

6. Derreter o modelo burocrático e trabalhista. Estudantes e professores, obrigados ao cumprimento de ritmos institucionais pautados nas praticas industriais, alheios às necessidades, possibilidades e ritmos de aprendizagem dos estudantes, ocupados em vigiar o cumprimento de pautas, horários, pontos, no preenchimento de documentos, formulários e relatórios, todos, documentos alheios ao processo didático pedagógico e que esgotam a maior parte da energia disponível no sistema, evitando que este cumpra seu objetivo manifesto, qual seja, educar as crianças. Modelo que condena os professores a trabalhar cada vez mais por cada vez menos remuneração e sem tempo para aprender e atualizar-se, sem tempo para pesquisar e aos estudantes a estudar cada vez mais por menos aprendizado, a repetir incessantemente as lições fragmentadas e desconexas de livros de texto.

7. Derreter o modelo arquitetônico e espacial. Escolas fabricas. Escolas prisão. Escolas compartimentalizadas, vigiadas, fechadas. Escolas que interrompem fluxos, de pessoas, de relações, de idéias, de movimentos. Espaços limitantes, esteticamente feios, destruídos ou uniformizados, branqueados, desconectados da comunidade, da cultura, da vida, identificados com imagens estereotipadas(disneylandias de mal gosto), panóticos dissimulados. Espaços desconectados, tecnologicamente nulos, vazios e definitivamente repressivos. 

8. Derreter os dispositivos que separam estudantes e professores da relação profunda, alegre e confiante com os diversos tipos de conhecimento. Superar tudo que impeça o aprendizado, a pesquisa, o debate, o diálogo, a construção coletiva e individual de conhecimento. Efetivar a relação amorosa com os livros, com a informação, com as comunidades de produção de conhecimento, com os diversos saberes. Concentrar a relação professor-estudante entorno de todos os tipos de conhecimento (mitologia, magia, filosofia, teologia, ciência,a arte, saberes e tradições). Favorecer o dialogo entre todos estes tipos de conhecimento. 

9. Derreter os muros da escola. os físicos e os epistemologicos. Que o mundo lá fora circule totalmente dentro da escola. Que a escola aproveite tudo o que vive lá fora. Que a escola viva o mundo como um grande livro, que viva para aprender dele e para transformá-lo, para criá-lo. Que toda paisagem física ou humana seja tema, objeto e objetivo. Que a vida das crianças e dos professores seja fundamental no processo de aprendizagem. Que a rua, a familia, a comunidade, as instituições, o museu, o mercado, a natureza, sejam a sala de aula e o livro, o personagem, o experimento, o sujeito do interesse. Que a vida de cada um seja matéria prima para o estudo. 

10. Derreter todo senso de obrigatoriedade. A escola é obrigatória. Compulsória. O aprender é uma predisposição natural de todo ser humano. A obrigatoriedade destrói o prazer de aprender. Urge recuperar o estatuto de liberdade inerente a aprendizagem. 

Como conseguir isso? Não se ocupe em reformar a escola. Esta não é uma pauta de reformas. Apenas abandone o sistema escolar. Isto é, ocupe-se em viver a educação, sua, dos seus filhos ou estudantes, da sua comunidade a partir de outros parâmetros.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O velho paradigma é a escola


O movimento Todos pela Educação e o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) aplicaram no primeiro semestre deste ano a Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização). Se pretendia avaliar o processo de alfabetização em alunos que concluíram o 3º ano do ensino fundamental.  Os resultados permitem diversas interpretações.

O 43,9% dos alunos são deficientes em leitura e 46,6% em escrita. Ou seja, são semialfabetizados. Não captam o significado do que leem e redigem uma simples carta com graves erros de sintaxe e concordância. A situação é mais grave, historicamente na escola pública que na escola particular.

Os diversos autores concordam: uma criança que aos 8 anos de idade não sabe ler nem escrever vive já um atraso frente àqueles que lêem e escrevem fluentemente. Destes será o futuro. Daqueles um eterno retorno ao passado. E todos culpam sistematicamente à escola.

Parecem verdades absolutas: 1. a idéia de que as crianças devem ser compulsoriamente alfabetizadas até os 8 anos de idade. 2. Que isso deve ocorrer dentro da escola.  Quem ousaria contestar tais verdades?

E concomitantes a essas duas verdades, começam a aparecer outras: a) a contestação da progressão automática e da aprovação automática; b) a demanda de superar o regime de 4 horas de permanência na escola  por um outro que contemple 6 a 8 horas por dia na escola, como ocorre em tantos países.

Estas medidas, altamente conservadoras, são claras em seus objetivos: reforçar o caráter punitivo da educação escolar, castigando ao estudante pela ineficiência do sistema e; propiciar o aumento das horas de reclusão escolar,  com a idéia de que manter mais tempo o estudante dentro de um sistema (ineficiente) lhe permitirá tornar-se um melhor estudante.

Os que clamam por mudanças na educação apenas pedem que o velho paradigma escolar seja fortalecido quando deveriam estar pensando urgentemente em novos paradigmas. E aqui, é necessário afirmar com toda veemência: o velho paradigma é a escola. Ela deve ser historicamente superada.

Porém, como sempre ocorre com as mudanças históricas, elas não são decretadas pelos sustentadores dos velhos paradigmas. Não é desde dentro do sistema escolar que será possível pensar como educar efetivamente as novas gerações. A escola viverá seu ocaso como acontece com os paradigmas que não mais respondem as necessidades da história. De nada adianta o gasto de energia coletiva, simbólica, política e social em renovar, atualizar, melhorar o sistema escolar.

O que é necessário agora é viver, ensaiar, experimentar, aprender a partir de novas estruturas. Estas nos são dadas pelo próprio desenvolvimento histórico, pelas novas tecnologias, pela emergência de novas possibilidades de comunicação, de interação a partir das redes sociais. Podemos dizer que as novas tecnologias derreteram as escolas. Na medida em que é possível (não utópico), acessar livremente, de maneira desterritorializada, todo tipo de informação (científica, artística, mitológica, filosófica, etc.), entrar em contato com comunidades de interesses comuns, de partilhar abundantemente do conhecimento que está sendo produzido, então é possível pensar e executar um projeto no qual todas as instâncias da sociedade se tornem educadoras. A família, a comunidade, a rua, o bairro, o mercado, as instituições públicas, as privadas, em fim, todo indivíduo e todo possuidor de um saber, toda memória coletiva ou individual, podem e devem ser conectados numa onda comunicacional educativa mundial.

Isto já está acontecendo. A educação não está mais nas mãos dos estados. As escolas sim (esse é o problema, confundir educação com escolas). Mas o Estado, as Organizações Internacionais, as grandes corporações devem acordar para esta realidade: o mundo está comunicando-se e também, educando-se, a partir de outras instâncias. Está na hora de começar a pensar o que fazer com tudo isso: o mundo que acontece fora das escolas!!!!


terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Educação que coloca a criança no centro do processo


Está em qualquer projeto político-pedagógico. Faz parte de qualquer teoria minimamente interessante sobre educação. É um consenso universal e parte dos direitos da criança: ela deve ser o centro nos processos educacionais. Mas o que se constata é exatamente o contrário: as crianças vivem nas periferias do processo. Elas são apenas necessárias,  pois sem elas o sistema nem faria sentido.

O que queremos ouvir de uma instituição educacional quando matriculamos um filho é que ele será tratado em toda sua humanidade. E é isso que as instituições nos prometem. Porém, apenas o ciclo se inicia, ele se torna apenas um número, um registro, um histórico, uma contabilidade, uma quantia.  Na prática o que gostaríamos de ver é que suas necessidades de aprendizagem, suas dificuldades, seus interesses, seus ritmos, suas virtudes, seus talentos, sejam cuidadosamente observados, de maneira a receber o apoio onde é necessário e asas onde é importante.

Porém, na prática não há tempo hábil de parte de ninguém na instituição para realizar algo assim. Estão todos sempre muito ocupados.  Em que? Na produção de todos os processos institucionais. No preenchimento de todos os documentos, no lançamento de todos os dados, na vigilância de todas as disposições, no seguimento do planejamento, na cobrança de todos os regulamentos, nas disposições financeiras.

O que passa efetivamente na alma de cada criança...não alcança a atenção dos adultos que  vivem a instituição escolar.  Não por que eles assim o desejem. Mas porque toda a energia deles é esgotada pelas demandas de manutenção da instituição.  Se não fosse assim, se os atores que trabalham dentro da instituição dedicassem energia a cuidar das crianças, a instituição sucumbiria.  Se desorganizaria.  É por isso que as promessas ficam apenas no projeto político-pedagógico. Na prática, toda a energia é concentrada em viabilizar, sustentar, produzir, organizar, gestar....a instituição.

É por isso que ao propor a desescolarização como alternativa, a retirada da criança da escola é fundamental. Uma possibilidade de colocar a criança no centro do processo é fora das instituições, e por tanto, diante dos olhos dos responsáveis pela sua educação, os pais. Sejam estes os biológicos ou não. Isto não significa, em nenhum caso, o estabelecimento de um regime de confinamento dos filhos em torno dos pais. E sim, que passa pela responsabilidade dos pais, em diálogo aberto com os filhos,  a construção das múltiplas interações do processo educacional deles. (Em breve publicaremos um texto sobre diversas possibilidades de construção dessas interações com o imenso caudal dos produtores de conhecimento).

O importante é que a criança deve manter-se no centro das atenções daqueles que são responsáveis por ela. E somente como fruto desse exercício é que pode vir a acontecer o conhecimento necessário dos seus interesses, das suas necessidades, dos seus talentos.

Não é necessário um curso de pós-graduação para que isso aconteça.  Toda mãe e pai dedicados vivem essa experiência desde os primeiros momentos de vida da criança. É pela atenção que a mãe consegue entender as necessidades da criança na fase pré-oral. Criança e mãe se comunicam. Constroem conteúdos, sentidos, significados e os compartilham. A condição para que isso aconteça é a realização concentrada desse processo de observação da criança. Cada sorriso, cada choro, cada gemido é significativo. Tudo isso se perde rapidamente assim que a criança é matriculada no maternal.  Em alguns dias a mãe não consegue mais reconhecer o “linguajar “do filho(a).  O que está ouvindo, vendo, cheirando, sentindo...passa agora pelas rotinas da instituição. E  a mãe desconhece essas rotinas...pode até imaginá-las, mas nunca terá a possibilidade de compartilhá-las com a criança pois, tais rotinas não acontecem dentro de casa.

Esse processo de estranhamento se amplia nos anos subseqüentes. Dificilmente os pais conseguem acompanhar efetivamente as rotinas escolares que estão moldando cotidianamente a alma da criança. Eles, verão apenas os efeitos desse processo concretizados no documento no qual a instituição informa a situação escolar do aluno.  É impossível para os pais conversar com o filho sobre o que ocorre na escola.

Dois modos de linguagem se instauram e a criança aprende a responder a cada um deles como se fossem de fato separados.  Um compete à linguagem institucional,  outro a linguagem da vida diária.  O problema está no fato de que a linguagem institucional é fragmentária, descontinua,  descontextualizada e sobre tudo, disciplinar.  A criança passa a lidar com uma infinidade de fragmentos de informação sobre a qual ela vai ser avaliada. Memorizar os fragmentos mais importantes é tudo que conta nesse jogo. Se ela descobre isso, será entendida como  boa estudante, se não ela será entendida como desadaptada ou como mal estudante e será reprovada.

Um silencio típico invade as relações entre pais e filhos na escola. A final, quase nada do que acontece entre eles, lhe será útil na escola. E quase nada do que acontece na escola, parece útil nas relações fora dela. Os pais terminam alienados do processo que estão vivendo seus filhos e estes  começam a viver apenas para domesticar de alguma maneira a infinidade de fragmentos de informação  pelos quais suas habilidades serão avaliadas. 

A grande maioria das crianças descobre o jogo. Percebem ou se comunicam entre eles, quais são os fragmentos de informação que serão cobrados. Estes são vendidos, comprados, negociados, distribuídos, compartilhados entre eles. Então se produz o efeito final: a instituição se contenta com saber que a maioria passa nas provas. Os pais ficam felizes de receber boletins  com bons resultados e as crianças...bom...elas sabem que por enquanto vão acertando o jogo. Como efeito colateral...vem o desinteresse absoluto por aprender qualquer coisa que seja.  A final de contas, ninguém, até aí, absolutamente ninguém,  se preocupou com isso...o que cada criança efetivamente está aprendendo não é algo que passe pelas rotinas e demandas da instituição...passa a não ser parte da vida dessas crianças.

O que temos até ali: no inicio uma instituição onde um grupo de professores de diversas disciplinas revisam uma quantidade enorme de conteúdos e aplicam provas aos seus alunos. No final temos os mesmos professores e um grupo de estudantes aprovados ou reprovados.  Mas, é isso que deveríamos esperar do processo educacional?

Não. O que deveríamos ter no início seria um grupo de professores ou maestros competentes em determinados conhecimentos e um grupo de estudantes que ignoram esses conhecimentos. No final, deveríamos ter um grupo de maestros e um grupo de estudantes compartilhando seus conhecimentos. Deveríamos encontrar um diálogo entre jovens e adultos que compartem experiências a traves de diversos saberes.  Se no início temos um músico e um não músico...no final deveríamos ter dois músicos. E assim por diante com todas as disciplinas, saberes e conhecimentos.

O processo educacional deveria devolver-nos jovens que desenvolveram suas capacidades, suas habilidades, suas virtudes, seus conhecimentos. Jovens que aprenderam e que por isso, agora estão interessados em diversos assuntos, temas, problemas, possibilidades. Jovens que agora projetam suas vidas sobre os trilhos do conhecimento que incorporaram a suas vidas.

Somente então saberíamos que cada um deles foi colocado no centro do processo educacional.  






segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Escolas não crescem no ritmo das crianças




Desde 1990 até a atualidade tive a oportunidade de visitar inúmeras escolas em diversos lugares da Colômbia e do Brasil, de conversar com os professores e pais de família. De todo esse percurso, duas questões vem a minha memória. Questões que se tornaram importantes para mim, dada sua recorrência: 1.- A maneira como as escolas lidam com as crianças menores de 8 anos, e; 2.- A dificuldade das escola em lidar com as crianças que estão no limiar dos 10 anos.

Com os pequenos, no jardim de infância e ainda nas primeiras séries, as escolas adotam um modelo de funcionamento que se fundamenta na criança como centro do processo. O que cada um deles está sentindo, vivendo, experimentando, compartilhando é importante. Por tanto, o ambiente que se constrói para propiciar esse aprendizado está fortemente ligado ao lúdico e ao estético. Brincar e criar são como dois trilhos sobre os quais caminha o processo escolar. Você se depara com professoras (não sempre) predispostas a cantar, recitar, contar histórias, estar no chão, sentar-se com as crianças, correr com elas, participar de todos os momentos, na sala, no pátio, no banheiro, na cozinha, no jardim, na oficina. Existe um esforço por seduzir à criança, por expor diante dele um ambiente que beira na magia.  A relação professor-estudante se fundamenta no carinho, no conhecimento, na aproximação, na admiração. O professor sabe muito mais do que o nome de cada um dos pequenos.

É interessante dizer aqui, que funciona igual nas escolas que recebem como público crianças com algum tipo de deficiência. Independentemente da série, em muitas dessas escolas, cada sala é um mundo a ser explorado. De cada canto da escola explodem oportunidades de aprendizagem a partir de elementos que vem do teatro, da pintura, da musica, da lida com plantas, da experiência de sabores, cores, texturas, textos.

Nestas escolas as professoras(es) estão predispostos a rolar no chão, a se sujar, a rir, a brincar, a estar atentos de cada gesto de cada uma das crianças.  Você encontra cada professor divertido, cheio de estórias, de contos, de habilidades. São seres engajados e completamente entregues ao que essas crianças demandem deles.

É completamente diferente o que ocorre quando se trata de crianças, professores e ambientes das séries seguintes. A escola sofre de uma sorte de esclerose múltipla. Tudo se mostra rígido e cansado. Os espaços deixam o lúdico e incorporam a noção de disciplina. Se estabelece uma distinção clara entre o que é lúdico e o que não é. E se privilegia o que não é. O lúdico é confinado a determinados lugares e momentos.  O pátio e o recreio. Nesse momento as professoras (es) simplesmente desaparecem do lugar. Não participam, não compartilham, não rolam no chão, não suam, não se sujam. Aguardam silenciosos e sacerdotais as crianças na sala de aula, o lugar para estar imóveis, atentos, compenetrados, concentrados, silenciosos. Os professores adotam uma atitude cerimonial, punitiva, distante. E os estudantes decidem ser indisciplinados. Testam a todo momento os limites de cada professor, burlam cada código, sofrem cada minuto. Somente o recreio faz sentido. Somente a hora em que se vem libertos dos seus professores-vigias. Ali, no recreio, acordam. Na sala, adormecem. No pátio explodem, na sala se desdobram entre seus desejos e suas obrigações.

Tudo que antes era parte do processo, agora é entendido como irregular. E onde antes eram entendidos como alegres e criativos, agora são entendidos como indisciplinados, irregulares, desadaptados, desorganizados. Onde antes valia sua espontaneidade agora reina a arbitrariedade, a norma. Olham para essas crianças e sentem saudade de como eram quando pequeninas. Agora lhes parecem perigosas e sentem desconfiança. Todos sintomas de um escola que se nega a crescer, que vive no passado e que sente raiva dessas crianças que deixaram de ser criancinhas. Uma certa síndrome de Peter Pan. 

Não é pouca a literatura que existe sobre a necessidade e importância de fazer da escola um ambiente lúdico e esteticamente iluminado. Sobre a importância de estabelecer relações horizontais com os estudantes. Sobre o fundamental que resulta acompanhar o processo pessoal de cada estudante. Os autores das mais diversas tendências demonstram a toda hora como tudo isso que se faz no jardim de infância e nas primeiras séries, seria positivo em todos os anos de escola.  Mas, como bem disse o ditado popular, entra por um ouvido e sai pelo outro.

As escolas escrevem projetos político – pedagógicos, onde dizem que é isso que farão. Onde  informam qual será a postura de cada professor. Onde citam os autores que mais defendem essas idéias. Uns dias depois entram em sala de aula e mecanicamente vivem essa metamorfose. O professor lúdico fica no papel e aparece o disciplinador. Vem pra sala o burocrata e fica em meras palavras o ser humano dedicado a cuidar da relação com cada estudante. O artista desaparece e na frente se coloca um ser plano, sem paisagem, seco. Aquele que ensina ao brincar da lugar ao conteudista, ao cara preocupado com o numero de paginas e capítulos. O ser humano que conhecia cada nome e cada história de cada menino o menina, abandona para permitir a instauração daquele que apenas chama a lista e da faltas ou presenças. Quem sabia que estava acontecendo na alma de cada criança da passo ao que dispara notas em azul ou em vermelho.

Então as crianças enlouquecem. Subvertem. Manipulam. Mostram seus argumentos mais radicais, confabulam. Se tornam silenciosas em sala de aula quando o assunto é o tema que o professor está tratando. Falam apenas sobre o que lhes interessa, no cochicho. A sala vira um jogo de vigilância mutua. Nenhum pode participar sem ser chamado de nerd.   As fraquezas de uns, as fortalezas de outros são assunto permanente. O professor luta para dar o conteúdo do dia. Eles lutam para inteirar-se o menos possível. Interessa qual é a de cada professor, o que ele gosta de ouvir ou ler nas respostas da prova. Sabem que cada professor tem seu jeito e conseguem mapear cada um deles. A meta é passar a disciplina e passam. Nos recreios competem, se vingam, dão coices. O bulling é uma norma nas relações. Um evolucionismo básico toma conta do lugar. Os mais fortes acumulam privilégios e dominam o lugar em beneficio próprio. Os mais fracos, os gordinhos, os feinhos, os perdedores, viram sombras pelos corredores.  Todos são ou predadores ou predados. É a isso que as escolas e as instituições chamam de socialização. Se você sobrevive, então se considera socializado.  Assim, os controles por parte da administração da escola se desenvolvem: câmeras de televisão, vigias, blitz na entrada e na saída, dispositivos burocráticos de sanção, castigos, comunicados, etc. Se a escola é particular a paisagem é de domesticação. Lembra uma fábrica, um hospital. Se é escola pública, então a paisagem lembra qualquer lugar depredado. Lembra uma prisão, uma delegacia ou coisa pior.

Se aceita esses ambientes como normais. É isso que as escolas entendem que é crescimento: algo que torna as crianças insuportáveis e perigosas e aos professores múmias burocratizadas.

Mais, gente, é evidente que isso que ocorre com as crianças no representa um processo de crescimento. Que a atitude dos professores está longe de facilitar o desenvolvimento sadio de cada estudante. Que esse tipo de relações não levam ninguém a amadurecer, a aproximar-se do senso de cidadania, o coisa que o pareça. Isso que acontece é o que podemos entender como um ambiente patogênico. E esse tipo de ambientes gera diversos tipos de violência.  Mais explícita ou mais implícita, porém, violência do mesmo jeito.

Uma escola deveria crescer junto com a criança. Não apenas abandonar o lúdico e instaurar o disciplinar.  Mas amadurecer a forma em que se vive a ludicidade. A forma como uma criança de 3 a 7 anos brinca é diferente da forma como uma criança de 8 a 12 anos brinca. Mais as escolas no conseguem acompanhar essa mudança. Preferem interpretar essa passagem como uma perversão do caráter da criança. Então instauram diversos dispositivos disciplinadores, de controle, de punição.

Estes dispositivos são o centro do processo daí em diante. A criança e suas demandas e necessidades, desaparece. A administração da instituição é compelida a dar conta de todos os dispositivos de controle possíveis: aumento da carga horária, aumento da carga curricular, maior numero de provas, maior peso das sanções, orçamento para contrato de dispositivos de segurança, gastos em logística e estrutura de segurança, etc, etc.

Escolas deveriam crescer com as crianças, mais não conseguem fazer-lho. Em troca, as crianças devem continuar a crescer sem as escolas. E esse é o nosso desafio. Alem do espaço escolar o mundo espera por seres humanos capazes de transformá-lo, de entende-lo, de dar-lhe novos sentidos.   Seres capazes de olhar de frente para as diversas problemáticas que desafiam esta época e ser criativos. 

Ao crescer, o lúdico deve transformar-se em criatividade e o estético deve alcançar o ético. Se isto acontece, houve crescimento. Se não, não. Cresceram os corpos, mais os espíritos se infantilizaram. Os efeitos são evidentes: se trata de seres que não brincam, debocham; não são criativos, mais destrutivos, não tem senso estético, apenas consomem tudo que as grandes massas imitam, e definitivamente não desenvolveram senso ético, são ególatras disputando tudo para si.  Crescer é preciso. Escolarizar não é preciso.

 



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Como se construiu esse consenso universal em torno da escola?

Minha geração foi, talvez uma das primeiras a ser plenamente escolarizada. Entrei no jardim de infância quando tinha 3 anos de idade. Aos 6 anos iniciei a escola primaria. Com 11 anos  fui para o colégio de secundária e aos 16 anos estava formado. Aos 17 estava na Universidade. Cinco anos mais tarde era um profissional.  De 1966 a 1986 , durante 20 anos(!), ininterruptos fui a para a escola. Isso sem contar anos depois as pós-graduações e o mestrado que fiz, o que vem a somar outros 5 anos de vida. A geração dos meus pais viveu a escola apenas durante alguns anos. Minha mãe, por exemplo, apenas fez os 5 anos da primária. Minha avó e meus avô eram analfabetos. O velho Rafael aprendeu a assinar seu próprio nome  com 60 anos.

Costumo perguntar sobre esse tópico aos meus alunos nos diversos cursos universitários e de pós-graduação dos quais sou professor. É assim para a grande maioria. Eles em geral são a primeira geração a chegar à Universidade.  Isso quer dizer que o mundo escolarizado é ainda, em termos históricos uma novidade para a grande maioria da população. Porém, se a relação com a escola é relativamente nova, a relação entre a população e o conhecimento científico ainda está nos seus anos iniciais. Antiga é a relação entre qualquer ser humano e os diversos saberes. A final, é certo dizer que o ser humano tem dependido do seus saberes para fazer a sua vida ao longo de toda a história da humanidade.

Historicamente apenas grupos muito seletos da população receberam educação formal. Até a modernidade a maioria da população aprendia de maneira informal, fazendo uso dos mais diversos expedientes e processos. A escola como nos a conhecemos não existia.

A modernidade trouxe um espectro amplo de mudanças. A Revolução Industrial, um novo cenário econômico mundial, a chegada do capitalismo, as permanentes inovações nos produtos e nas tecnologias de produção. As revoluções políticas (Francesa e Americana), a nova configuração dos Estados Nação, a queda dos regimes absolutistas e a emergência dos modelos democráticos. E finalmente, a emergência da ciência como conhecimento dominante, a implantação de métodos quantitativos e empíricos,  a construção de  um grande consenso político e epistemológico para oficializar a ciência em demérito de uma gama enorme de outro tipos de conhecimento com os quais a humanidade tinha transitado ao longo de toda a sua história. Filosofia, arte, mitologia, magia, teologia, tradições,  as quais foram destituídas de legitimidade  para poder entender a ciência como o único caminho verdadeiro para a verdade.

A escola seria o lugar, o onde o projeto moderno, tanto no político, no econômico e no epistemológico, se tornaria possível.  Assim as escolas entraram no cenário histórico do 1800 ao 1900 para levar à grande massa os elementos necessários para viver no capitalismo, na democracia e na ciência. Uma racionalidade, uma lógica, uma visão de mundo, uma verdade. Entendia-se que essa seria a forma de acelerar o progresso de toda a humanidade. Logo apareceu a necessidade de escolarizar a população. Era uma decisão que levava em conta a urgência de estabelecer um novo patamar na relação com essa população. Era necessário que se adapta-se às exigências da nova economia, da nova política e do novo tipo de conhecimento, a ciência.

Foi a partir da Revolução Francesa que o modelo de escola que conhecemos hoje iniciou sua expansão até tornar-se o único possível e legítimo. Foram necessários 200 anos  para que o modelo escolar fosse universalizado.  Hoje quase todos os países contemplam leis e políticas públicas nas quais tornaram obrigatória a educação escolar para a infância e adolescência.

Durante a maior parte desses dois séculos, a escola se concentrou na educação das elites. A grande maioria da população permaneceu alheia à instituição. Nos últimos 30 anos tanto os governos quanto a população em geral, consolidaram o consenso em torno da escola. Ela se tornou em uma instituição absolutamente necessária.  Pobres e ricos, urbanos e rurais, gentes de todas as cores e crenças concordam, maioritariamente, na necessidade de levar os filhos para a escola.  Tanto os regimes revolucionários como os totalitários e ultraconservadores ostentam essa convicção.

A escola hoje é entendida como um direito universal da infância.  Único caminho para assegurar o acesso da criança à vida social, econômica, política e cultural.  Em geral, este consenso é referendado por todos os atores que compõem  o   espectro social, todos os partidos políticos (de direita, de esquerda e de centro), pela igreja, pelas universidades, pela imprensa, pelos empresários, pelas organizações não  governamentais e pelos cidadãos comuns. A escola goza de um consenso amplo é irrestrito.

Quando se ouvem críticas à escola, não é contra o modelo escolar, mais contra os elementos mal implementados desse modelo: a falta de infra-estrutura física, à falta de professores, à falta de materiais, ao desinteresse por parte dos pais e responsáveis, ao desinteresse por parte dos alunos, à falta de qualidade dos professores, à falta de verba pública, ao excessivo custo da escola particular. Mesmo as grande mobilizações estudantis, todo que pedem é que a escola seja melhorada, qualificada, gratuita, facilitada, humanizada.  Aos governos se lhes critica por não destinar mais recursos públicos para a escola, por não pagar  melhor os professores, por não aumentar o crédito universitário, por cobrar taxas excessivas de juros, etc.

Vivemos por tanto, uma certa idade média em relação à instituição escolar.  Ela é a única verdade possível e  resulta herético questioná-la. Mais...vamos lá....ela, a escola...está fora de toda questão?  Em pleno século XXI, com tudo que está acontecendo em termos de novas tecnologias, de novos conhecimentos, de novas possibilidades de acesso à informação e a aprendizagem...com tudo que está acontecendo em termos políticos, econômicos, sociais e culturais...com tudo que vemos que ocorre e não ocorre na escola...nada? Bom...é uma coisa simples... a escola enquanto modelo, é criticável e temos elementos suficientes históricos, políticos, culturais, sociológicos, pedagógicos e até didáticos para fazer essa crítica e pensar as alternativas ao modelo. Mãos à obra!!!!!



 



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O mito do currículo escolar e como acabar com ele

O paradigma escolar se fundamenta atualmente na revisão de conteúdos. Os debates ao respeito se dividem em dois times: uns que defendem a quantidade máxima de conteúdo revisado e outros que, defendem a qualidade do conteúdo revisado. Ou, naqueles que defendem um máximo de conteúdo a memorizar e aqueles de defendem um mínimo de conteúdo a aprender.

Todas essas equações dão no mesmo "beco sem saída": a revisão de conteúdo, a eterna discussão sobre o currículo. E na medida que a discussão se torna cada vez mais complexa, ganham espaço os especialistas em currículo, que conseguiram ao longo de décadas tornar escuro o terreno sobre o qual discutir, decidir e vivenciar a educação dos nossos filhos. Eles se tornaram tão absolutamente necessários que sem eles nenhuma instituição consegue dar um passo à frente. Eles tem que ter especialização, mestrado ou doutorado, e entre mais elevada é sua patente, mais escuros são na elaboração dos currículos escolares. Isto ao ponto de ter construído um consenso: é necessário ter um currículo, se não não tem escola nem educação. Assim, o currículo escolar alcançou o caráter de mito.

Mas...cabe perguntar-se algumas coisas simples a esse respeito para ver se toda essa mistificação tem sustento mesmo ou não passa de um mero fantasma epistemológico. O que é um currículo? Para que serve? Como são feitos?

Um currículo é uma redução quantitativa e qualitativa de conteúdos diante da inesgotável quantidade de elementos existentes na história do conhecimento. Serve para selecionar o que, no critério do especialista em currículo, é indispensável saber de toda essa história. São elaborados a partir de um processo de seleção arbitrária de conteúdos que, dependendo de alguns critérios estabelecidos, elimina ou escolhe determinados itens dentro de um panorama vasto de possibilidades. Em geral, esses critérios obedecem a razões puramente ideológicas que embutem preconceitos políticos, raciais, de classe social, religiosos e até sexuais.
Por tanto o currículo tem sim uma intencionalidade: a de configurar na cabeça do estudante e do professor uma determinada visão de mundo. Isto é uma ideologia, um tipo de ordem.

Nada mais perigoso e poderoso. Um pequeno grupo de especialistas tem em suas mãos o poder de decidir o que uma geração inteira vai pensar, legitimar e entender a respeito do mundo em que vive. Daí que tenhamos os especialistas curriculares da direita e da esquerda e toda a sua guerra fria pairando sobre milhões de cabeças de estudantes e professores. Alguns exemplos disso: Toda a discussão sobre criacionismo ou evolucionismo. Toda a briga sobre o tipo de elementos dos cursos de história. A questão de tornar o ensino médio tecnológico, científico ou humanista. As discussões sobre educação sexual. A defesa da ciência em detrimento da arte ou da filosofia, o da mitologia. Inclusive as diferencias entre ensino público e privado passam por aqui.

Se o currículo é apenas uma luta ideológica, então a discussão, legalização, implementação e vigilância nos oculta, como ocorre com todas as posturas ideológicas, algo. O que? Nos oculta o verdadeiro acesso ao mundo do conhecimento. Ao que parece às elites interessa agora que todo mundo esteja na escola, mais não para encontrar-se com o conhecimento e tornar-se competentes nos processos criativos de todos os aspectos possíveis desse mundo, mais apenas para manter o controle social sobre as novas gerações, para socializar-los, para reproduzir as mesmas estruturas sociais excludentes. Para reproduzir o modelo de mundo que eles entendem ser bom. Para conservar como estão as práticas políticas, econômicas e sociais. E conseguem isso muito bem. Vemos como as novas gerações, ao passo que se mantém bastante afastadas do conhecimento ( inclusive rejeitando-o abertamente) lutam incessantemente por uma vaga no vestibular, por um concurso público e mais nada.

Por tanto, a elemento central de todo isto é abrir o fechar o acesso ao mundo do conhecimento. Penso que o processo de desescolarização deve ter esta como sua principal bandeira. Entendamos a expressão "mundo do conhecimento" como o conjunto de todos os saberes que o ser humano já produziu ao longo de toda sua história. Para enxergar isto é necessário usar os óculos da transdisciplinariedade. Assim, será possível observar que magia, mitologia, filosofia, teologia, ciência, arte e saberes tradicionais, compõem a enorme paisagem do conhecimento humano. É isso, é muita coisa. E todos os dias continua sendo produzido material novo em cada uma dessas frentes. É abrumador em termos de quantidade, qualidade, complexidade. Reduzí-lo a um currículo é um ato de violência. Basicamente porque significa retirar a maior parte de elementos que configuram esse universo e apresentar a colcha de retalhos resultante como um todo importante. Isto como se um recorte das partes pudesse, em alguma hipótese, ser mais e melhor que o todo.

A esta altura da história humana é impossível resumir a história do conhecimento e pela sua dinâmica, o será cada vez menos. O que fazer? Não adianta continuar brincando de fazer novos e melhores recortes. Temos que abandonar o paradigma da revisão de conteúdos. Toda revisão fica muito aquém do que é revisado quando este todo aumenta de tamanho a cada segundo num mundo como o nosso.

Um novo paradigma, ao abandonar o revisionismo conteudista deve concentrar-se no aprendizado das competências necessárias para poder participar ativamente da dinâmica de produção de conhecimento. De todos os tipos de conhecimento. Neste paradigma o importante não é memorizar dados. É aprender como se produzem esses dados. Não é saber de cor os nomes de alguns cientistas, é saber como eles dialogavam entre si. Não é repetir conceitos, teorias, fórmulas, mais entender quais foram os processos sociais, históricos e epistemológicos que fizeram possível que estes conceitos se afirmaram na história do conhecimento. Não é repetir incansávelmente conteúdos, mais entender os contextos históricos em que surgiram e o contexto histórico em que novas demandas de conhecimento são feitas. Não é a repetição de equações mas a aprendizagem de um linguajar especifíco, a linguagem de quem conhece algo.

Um novo paradigma deve concentrar-se em capacitar os estudantes e professores para fazer parte ativa do jogo do conhecimento. Uns e outros devem ser bons jogadores nesse "campo". Metaforicamente falando: não adianta de nada fazer que os estudantes aprendam de cor os nomes dos jogadores de todas as seleções de futebol, nem que saibam os nomes de todas as manobras de cada jogador. O que adianta é que sejam eles próprios bons jogadores de futebol. O mesmo com o conhecimento: um bom jogador no campo epistemológico não se preocupa com a quantidade de dados memorizados, mas com sua perícia na aplicação das regras do jogo do campo no qual se produz conhecimento.

Isso não se resolve com um currículo, mas com a construção de mapas mentais e competências que permitam ao aprendiz saber onde está localizado, com quem está conversando no mundo do conhecimento, quais são os problemas que cada área esta desvendando e quais são os instrumentos e processos com os quais isso está sendo feito. Não adianta ao marinheiro saber quantos barcos tem no mar. Adianta conhecer os instrumentos de navegação e as regras que todos os marinheiros utilizam.

Nesse sentido o processo de desescolarização deve ter como um desafio, colocar o estudante frente a produtores competentes de conhecimento. Não pela quantidade, mais pela qualidade. Um bom mestre vale mais do que anos e anos de professores sem esses instrumentos de navegação, sem essas competências. Mais que preocupar-se com a instituição e todo que ela implica, é necessário ocupar-se da relação entre o estudante e o mestre. É dessa relação que pode surgir o novo mestre. A instituição é em si mesma incapaz de levar um estudante até tais competências. Os poucos que conseguem transformar-se em produtores de conhecimento o fizeram dada a relação pessoal estabelecida com um mestre. Não com uma instituição. Esta todo que podia oferecer era um currículo. O mestre oferece seu conhecimento, sua experiência, seu modo de fazer, suas relações com o mundo do conhecimento. A instituição oferece livros de texto. O mestre oferece vivências, experiências, compartilhamentos, diálogo, correções, críticas efetivas.

Libertemos os mestres e os estudantes das prisões do currículo e das instituições e deixemos acontecer esse fenômeno misterioso da aprendizagem acontecer. Vejamos como ao deixar em contato um mestre com um leigo, no final teremos dois mestres. Se isso não ocorreu, não houve aprendizagem.