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É a escola a única instância educadora na sociedade contemporânea? É legítimo impor a toda a sociedade um único modelo educacional? Em pleno século XXI, é impossível pensar alternativas sérias ao modelo escolar? O que estão fazendo aqueles que tiveram a coragem de educar seus filhos fora da escola? Como pensar e implementar um processo sustentável de educação fora da escola?

Estas e muitas outras perguntas tem neste blog um espaço para construir respostas. Educar os filhos na sociedade do conhecimento é um desafio que supera de longe o modelo escolar...é urgente dedicar-nos coletivamente a consolidar essas alternativas.
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domingo, 15 de janeiro de 2012

Mais um ano para aprender!!


O mês de janeiro para famílias que desescolarizaram seus filhos ou que estão pensando em fazé-lo  é vertiginoso. É tempo de consultar interiormente como viver este novo ano de aprendizagens. Por isso, é importante ter algumas experiências vividas por outros que possam acalmar a costumeira ansiedade.  Fazemos por tanto o convite a ler os textos publicados nas Histórias de Desescolarização. Ali tem algumas percepções interessantes e mais dicas para o inicio do ano.



Veja como fazer um mapa do conhecimento:


Algumas das lições aprendidas dos primeiros tempos de desescolarização:


Uma estratégia para iniciar o ano e desde já estabelecer uma ruptura com o modelo escolar:



Lembre-se: Aprender é condição humana.  Que aconteça sempre é o que deve inspirar toda experiência de desescolarização.


Entra por aqui:

http://desescolariza.blogspot.com/search/label/Histórias%20de%20Desescolarização

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Um GPS para Rafael

Depois do primeiro ano do Rafael fora da escola, muitas questões ficaram acesas. A mais forte foi a necessidade de ter um instrumento de navegação que orientasse a viagem pelo imenso mar do conhecimento. Era preciso contar com um instrumento, que no fosse o currículo escolar com suas inevitáveis fragmentações de conteúdo, que lhe permitisse ter um norte. Algo que desse ao Rafael um horizonte e ao mesmo tempo a possibilidade de fazer escolhas significativas para ele.

Conversando com ele sobre esse assunto percebi que muitos dos meus alunos na Universidade passam pelo mesmo problema. O que estudar? Por onde começar? E depois por onde seguir? Como saber que não se está a errar nas escolhas realizadas? O que escolher se ha tanto para ser estudado?. Todos nos sentimos entrando num labirinto e isso é angustiante.



Em geral não sabemos navegar pelo imenso mar do conhecimento. Todo estudante ( e por que não, todo professor) tem a mesma sensação. A sensação de estar perdido numa imensa massa informe de dados. Não sabemos onde começam nem para onde vão. É o mesmo que estar numa grande cidade e desconhecer para onde vão todas as pessoas e automóveis que passam em todas as direções. O máximo que atinamos a fazer é perguntar onde estamos. Podemos até encontrar um endereço mais isso não significa nada além de que descobrimos um ponto que faz algum sentido. E de ali nos agarramos. 


Um bom dia apareceu uma metáfora que me permitiu aproximar-me a mim mesmo e aos meus alunos de algo que iluminou nossa navegação.


Eu disse pra eles, "pensem o conhecimento como se fosse uma cidade enorme, com seus diversos bairros, zonas, centros e periferias. Uma cidade que está sempre em construção, sempre em transformação, onde alguns lugares se tornam muito visitados enquanto outros estão sendo abandonados. Alguns bairros novos estão sendo construídos, outros são tradicionais e outros ainda, lembram que foram moda em outros tempos e hoje são visitados apenas por alguns saudosos ou por curiosos. Avenidas que comunicam diversas partes da cidade. Ruas e ruelas. Atalhos. Uma cidade, em fim, que se metamorfoseia a cada instante, que vibra, que se renova e que nesse processo vai fazendo sua história. Da mesma maneira funciona o conhecimento!!". 


O mesmo ocorre no mundo do conhecimento, nos agarramos de alguns dados que nos parecem certos, basicamente porque desconhecemos a dinâmica que anima todo o movimento desse complexo mundo. 

De que precisamos para poder andar numa cidade que desconhecemos? De um mapa, claro. Ele nos permite ter uma visão do todo, e ir e vir, de maneira a que o que vemos possa fazer sentido num contexto maior. Assim, por exemplo, ninguém pode dizer que conhece plenamente São Paulo, uma cidade com 23 milhões de habitantes. Todos somos estrangeiros numa cidade como essa, mesmo os que moram nela a vida toda.  A esse respeito um taxista me disse uma vez: "Aqui cada um vive numa pequena cidade e desconhece o resto". Pois bem, o mesmo acontece no mundo do conhecimento. Cada um conhece em maior ou menor grau um tema, um assunto, e desconhece o resto.  O taxista disse mais: "Eu mesmo sem meu GPS, não daria conta, eu preciso dele todo dia, é assim que eu me localizo".

Um adolescente como Rafael não gostaria de ter um mapa. Mais um GPS....ummmm...isso seria muito legal. Um GPS do conhecimento!!!


E lá fomos nos, a pensar o conhecimento como se fosse uma cidade. 

O primeiro foi perceber as grandes zonas dessa cidade. No começo para Rafael, tudo indicava que a sua cidade era feita das disciplinas da ciência. Então lhe apresentei outras zonas: a filosofia, a arte, a mitologia, a magia, a teologia e os saberes tradicionais. A nossa cidade seria uma cidade transdisciplinar!!! Se fossem apenas as disciplinas científicas, então seria uma cidade disciplinar. Más seria uma cidade pequena. Pequena ao menos no contexto de outros tipos de conhecimento que fazem parte da megalopole que é realmente a cidade do conhecimento. Ali, não circulam apenas cientistas, outros habitantes ocupam amplos bairros, bairros que já foram centrais, e outros que hoje parecem marginais, mais, que se olhados de perto, estão em plena atividade e continuam a gerar incríveis possibilidades de entendimento da vida e do mundo.

Então foi o momento de entrar em cada zona e deixar que os bairros aparecessem no mapa que estávamos construindo. Na zona da ciência, o Rafa identificou alguns bairros e percebeu que seria necessário deixar espaço para muitos outros. Os que estavam na sua cabeça eram os tradicionais bairros da biologia, a química, a física, a matemática. Logo descobriu que alguns bairros vizinhos tinham suas particularidades, como a da história, da geografia, a economia, a sociologia e a antropologia. 

Na zona da arte, um pouco mais difícil, ele caminhou bem na música, no qual ele já tinha transitado, na pintura e na escultura, e mais tarde em outros bairros como a dança, a fotografia e o cinema entre outros.
A estranheza aumentou na zona da filosofia. Ele tinha a sensação de que nunca havia pisado nessa arena.  
Confundia filósofos com bairros inteiros. Sócrates, seria um bairro? me perguntou. Lhe respondi, será Sócrates um setor dentro de um bairro, quem sabe o da Filosofia Grega?

As zonas da magia e da mitologia foram grandes surpresas. Ele já tinha visitado algumas mitologias e tinha uma noção de bairros a visitar. Mais algo que ele desfrutou mesmo foi visualizar a zona dos saberes tradicionais. O bairro da marcenaria e da cozinha ele adorava visitar de vez em quando. Mais quando entre outros muitos saberes encontrou o a lutheria, sua alma vibrou na hora. "Eu quero isso pai".



Era isso.  A construção do mapa lhe permitiu ir identificando seus interesses, descobrindo zonas que antes estavam na penumbra, abrindo espaços que lhe causavam euforia. Pouco a pouco fomos entrando em cada bairro e descobrindo o que ele podia conter. 

Agora Rafa tem um GPS. Quando navega no mundo do conhecimento sabe onde está, aonde pode ir. Quais as alternativas e as possibilidades. Ele começou a se sentir localizado. No seu computador ele vai organizando os assuntos que toca dentro do seu mapa e isso lhe permite navegar sem perder-se no horizonte.

Em fim GPS na cidade do conhecimento... é preciso.







quinta-feira, 24 de novembro de 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Primeiras lições aprendidas

Contamos num post anterior (O Rafa está fora da escola, e agora?) algumas passagens do primeiro ano do Rafael fora da escola.  Aprendemos algumas coisas que depois se tornaram muito importantes para entender e estruturar o processo de desescolarização. Vamos tentar sintetizar aqui algumas delas:

1. Ninguém está pronto para sair da escola. É necessário des-institucionalizar-se. Todos nós, exceto aquelas crianças que não foram matriculadas em nenhuma instituição, fomos ao longo dos nossos anos de escola, institucionalizados.  E o que isso significa é que fomos condicionados a cumprir todos os comandos que a instituição determinou. Perdemos assim, a capacidade de criar nossos próprios roteiros. Nos acostumar-mos a caminhar por rotas demarcadas pela instituição. O que é certo ou errado, o que é eficiente, suficiente e sustentável, tudo, é decidido por ela. Nós nunca somos chamados a participar desse processo. Assim, temos como única possibilidade aceitar essa sintaxe. Como na Idade Média, ninguém imaginaria sair da Igreja, da mesma maneira hoje a maioria não imagina que pode sair da escola. Esse é o sintoma principal da mentalidade institucionalizada.

2. Por tanto, precisamos passar por um processo de des-institucionalização. Nada fácil. Não existem manuais para fazer isso sem passar por momentos de desespero, de angústia. O sentimento principal é entorno de estar caindo fora do mundo.  E o mundo todo vai estar aí para lembrar você da sua queda. O mundo virá em forma de milhares de perguntas que muitas vezes não sabemos como responder. E não sabemos se as respostas nos satisfarão e a todos os que venha a questionar. Teremos ainda que lutar com nossos medos. O medo de perder os amigos, de ser incompreendidos, o de ser castigados, o medo enorme de estar errados, o de não saber exatamente o que deve ser feito. E muitos outros medos, como o medo do tempo que começa a correr feito um louco e escapa das nossas mãos, sem que consigamos dar uma forma fluida ao que queremos.  Mas temos que ter certeza de que se foi possível institucionalizar-nos, também será possível des-institucionalizar-nos. Algo dentro de nós vai emergindo quando na vida cotidiana nos permitimos experimentar nossos próprios ritmos, escolhas, sensações e pensamentos. Algo se desconstroi do lado de fora e algo volta a surgir do lado de dentro.   Temos muito a aprender sobre nós mesmos durante este período.  (Já virão novos textos sobre este ponto).

3.  O valor da diminuição da carga horária e curricular. O que se constata de imediato é que na escola o número de disciplinas e de atividades é muito superior as que uma família pode oferecer. No começo isso dá angústia. Mas depois, você percebe que essa é uma das grandes mudanças positivas. O melhor é começar efetivando uma atividade de cada vez. De maneira que para a criança ela seja uma experiência única. Assim será possível observar como sua alma se movimenta entorno da nova informação. Melhor se essa atividade é uma demanda dela. Algo que ela quiser fazer muito. Como isso, tocar guitarra. Uma decisão da criança. Então acontece algo incrível...ela começa a aprender guitarra. A tornar-se um músico. Toda sua energia se volta para isso e o que antes eram classes compulsórias de música agora serão algo absolutamente envolvente e enriquecedor. Tanto que da para perguntar-se, mas porque antes ela passava pela música sem interesse nenhum? Porque não aprendeu nada significativo antes? Pouco a pouco a criança irá descobrindo novas áreas de interesse.

4. A nova relação que se estabelece com quem lhe ensina. Antes, era uma relação distante, mediada por todos os processos institucionais. Agora, livre de toda essa parafernália, estudante e mestre se encontram um frente ao outro e não deve existir nenhum dispositivo institucional que estabeleça o percurso. O resultado dessa relação não será uma quantidade de dados numéricos alimentando um sistema qualquer. Será outra coisa completamente diferente e familiar: eles se tornarão amigos. Em breve, estarão compartilhando muito além de conteúdos. Suas vidas, seus sonhos, seus medos, suas histórias,  seus mundos. Quem quer que seja, terá a possibilidade de colocar-se na sua inteira humanidade diante dessa criança. E a criança terá, finalmente um ser humano para aprender dele e com ele. Cada professor se tornará significativo na vida desse menino ou menina. E eles lembraram por anos de cada um deles.

5. A nova relação com o conteúdo que está aprendendo. Em troca de uma quantidade de conteúdo para ser revisado, agora, o que importa é quanto conteúdo está sendo aprendido. Algo começa a acontecer no interior desse menino(a), agora ele acha cada coisa muito interessante. Quer saber mais. Se detém muitas vezes frente ao que está descobrindo. Encontra sentido nos temas. O Rafael, por exemplo, me perguntou um dia: Pai, será que posso viver disso que estou aprendendo? Por primeira vez ele sentiu desejo de projetar a sua vida naquilo que estava aprendendo! Isso é muito importante. Por primeira vez ele quis ver-se a si mesmo usando o que estava aprendendo para fazer sua vida. Isso nunca vi acontecer durante o tempo de colégio. Parecia que nenhuma disciplina, nenhum tema lhe chamavam a atenção. Agora se havia dado iniciou a um processo de compenetração com cada objeto de estudo. Uma paixão, uma identificação.

6. Eles começam a ter certeza de que estão aprendendo algo e isso os deixa felizes. Durante os tempos de escola o sentimento de incerteza toma conta das crianças. É que eles percebem que se instaurou um jogo perverso no qual os professores fingem que ensinam e os estudantes fingem que aprendem. Mas, lá dentro, as crianças sabem que não estão aprendendo e algumas criam um sentimento de não ser inteligentes que não conseguem expressar com ninguém. Agora, fora da escola, essa experiência do aprender se torna forte. Algo nítido dentro deles. Estão ganhando elementos novos e dominando novas possibilidades. Um repertório novo se estabelece na alma deles. E eles começam a gostar disso. Há por tanto um empoderamento. Um desfrute.  Algo novo se instaura: agora eles percebem que são inteligentes e que aprendem facilmente e com abundância. A incerteza de antes desaparece e se instaura  uma alegria concreta: estão felizes de estar aprendendo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O Rafael tá fora da escola, e agora?

Tirar um filho da escola é uma experiência radical. De repente você e seu filho se encontram num lugar desconhecido, onde existem mais perguntas que respostas.  O que devo fazer agora? Por onde começar? Por primeira vez a gente percebeu o quanto somos escolarizados.  O quanto estamos domesticados pelas instituições. O quanto elas nos acostumaram a ser pensados por elas. O quanto de responsabilidade a gente delegou a elas. Elas se tornaram os eixos por onde a gente caminha. Nos somos totalmente conduzidos.

Por isso o primeiro momento de desconcerto. Se não fosse assim, nem valeria a pena viver a experiência.  Isso mesmo, não sabíamos ao certo o que fazer. Sabíamos o que não fazer: isso era ir pra escola de novo. Esse seria o caminho muitas vezes trilhado.  Agora teríamos que criar, pesquisar, arriscar, ver com nossos próprios olhos.

Os primeiros dias e semanas foram terríveis. Havia que responder a cada dia sobre o que fazer com Rafael que agora estava em casa olhando para nos e esperando os comandos. E não havia comandos. Havia que responder a toda a família que agora perguntavam preocupados pela sorte do moço. E as respostas que dávamos eram sempre fonte de mais perguntas.  Era evidente que tínhamos instaurado algo anormal, e o olhar de todos a nossa volta era de suspeita. Não falaram as advertências...”vocês podem ser presos”. 

O Rafa...acordava tarde. Não gostava de ler, não gostava de escrever. Não se interessava por nada em particular.  Nenhuma disciplina vista na escola lhe lembrava nada que o despertasse.  Era um menino típico escolarizado. Tinha passado 7 anos na instituição e estava completamente acomodado aos comandos que a instituição lhe dava.

É desesperante ver como o tempo voa nessa situação. Se estivesse na escola, seus dias começariam as 6 horas da manhã, teria horários a cumprir, teria disciplinas, deveres de casa, horas de entrada e de saída. Teria hora pra dormir e pra acordar.  Agora não tinha nada disso.

Também seria muito tranqüilo comprar os livros de texto ordenados pela escola e deixar que ao longo do ano, trabalhasse capítulo a capítulo. Teria suas provas, e no final seu certificado.  Agora não teria nada disso.

Eu comecei perguntando a ele muitas e muitas vezes sobre seus interesses. O que ele queria? De que gostava. A resposta era confusa. Todas as respostas conduziam a uma: quero meus amigos, meus colegas de sala.  Quero voltar pra escola.

Cada semana escorria da nossa mão e a gente não atinava a fazer algo positivo. Não compraríamos livros de texto dos que usam as escolas.  Isso seria como levar a escola pra casa. São incompletos,  inconsistentes e fragmentados. Nem sequer são uma leitura agradável. Não seria sentando o Rafael a ler esses anacronismos que organizaríamos a vida dele.

Pensávamos em leitura sim. Para isso durante anos acumulamos uma bela biblioteca. Mas o Rafa não tinha a menor intenção de aproximar-se dela.  Os livros, como a todo adolescente escolarizado, lhe provocavam tédio. 

Pouco a pouco percebemos que estávamos procurando pela figura do antigo tutor.  Durante horas e horas conversamos sobre isso. Queríamos um professor que se aproximasse dessa figura lendária da história da educação. Um erudito, humanista, um leitor que lhe apresentasse o mundo do conhecimento. Mas...onde conseguir uma figura assim? Quanto custaria caso a encontrássemos?

Buscamos...muito. Não achamos. O mercado de professores o máximo que oferece é professores de uma determinada área. Ou então professores que acompanham o fluxo escolar. Fazem o chamado reforço escolar. Se a criança não está se dando bem com um assunto ou disciplina, eles lhe explicam o que ele não entendeu. Era pouco. Assim, abandonamos a procura pelo tutor. Ele não existe mais.

Voltávamos então ao tema dos interesses dele.  E foi assim que um dia de maio, ele quis voltar a estudar guitarra.  Já tinha iniciado isso uns anos atrás,  tinha abandonado achando que sabia demas. Agora voltava a sentir que a guitarra era algo que o  seduzia. Eu relutei...não seria apenas algo para ser abandonado um tempo depois?  Mesmo assim, um dia fomos de novo na escola de guitarra. Foi um bálsamo na alma dele. Em semanas ele progrediu bastante e sua relação com o instrumento e com a musica começou a desdobrar-se. (Já teremos mais notícias sobre isto).

Outro elemento que apareceu foi o estudo do inglês. Consideramos uma das melhores escolas de inglês da cidade. Inglês já tinha sido fonte de sofrimento pra ele. Mas agora ele parecia sentir-se muito a gosto.  Vale dizer que este é um tema para ser muito bem pensado: o porque da necessidade de outra língua e o porque uma escola de inglês é diferente de uma escola.  O certo é que Rafael iniciou um romance com essa língua.

Nessa mesma lógica fomos procurar uma instituição que trabalhasse apenas com matemática. Onde todos os professores fossem matemáticos (assim como na escola de inglês todos eram anglo falantes). Como a  quase toda criança a matemática lhe causava arrepios.  Mas lá foi ele desbravando o universo dos números.

Introduzimos algo entorno do aprendizado do manejo dos computadores. Queríamos que tivesse familiaridade com esses aparelhos, que aprendesse essa linguagem.

Foi assim que se deu o primeiro ano do Rafa fora da escola. No final, ele estava  transitando eram várias linguagens: a da música, a do inglês, a dos números e a dos computadores.   Eram poucas coisas se comparado á quantidade de tempo que todo estudante dedica a estudar numa escola.  Mas a qualidade era outra. No final constatamos algumas diferenças a respeito dos dias de escola: ele não tinha mais tédio algum com o que estava fazendo. Cada aula de  guitarra era uma descoberta, um prazer. Com o inglês a mesma coisa. Pouco a pouco com a matemática a relação cresceu na medida em que a relação com a professora se afinava. Com os computadores...isso vocês já sabem como é...vício.

Quando terminou o ano estávamos ao mesmo tempo felizes e tristes. Podíamos ver que o Rafael tinha saído do zero eterno. Agora estava aprendendo. Agora  tinha prazer de ir pra cada uma de suas aulas. Isso nos deixava felizes. E tristes porque ainda não tínhamos chegado a uma solução satisfatória.

Sim...falta uma coisa pra contar, os amigos, e a tal de socialização. Bom, Sabem como são crianças. Antes o Rafael tinha como amigos os colegas da turma e mais nada. Agora, tinha saído a procurar e encontrou uma boa quantidade de crianças de idades próximas no mesmo prédio onde fomos morar. Com eles passava horas nos apartamentos deles ou no nosso, ou brincava basquete horas e horas.  Se encontrou com o esporte e seu corpo começou a crescer.

E...não, não estávamos satisfeitos...não era isso que queríamos.  Mas muito do que queríamos começava a formular-se na nossa alma de uma outra maneira.  Durante o segundo semestre nos dedicamos a consolidar isso. A observar sua relação com os objetos de conhecimento dos quais se aproximava. A tentar perceber quais eram suas rotas de aprendizagem.

Nos faltava com quem conversar seriamente. Nos faltava encontrar modelos, vivências. Por falta desse dialogo, desse espelho, durante as férias do final de ano decidimos voltar com ele para um colégio formal. Mas não tínhamos a sensação de derrota. Rafael havia crescido como indivíduo, se havia singularizado, tinha agora elementos que eram dele, não do grupo, e de todas maneira agora era um garoto que tinha vivido uma ruptura, uma quebra de padrão.  Ele estava voltando pra escola, mas não tínhamos o sabor da renuncia. Todo o contrario, algo havia sido semeado. E agora esperaria o tempo suficiente para germinar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Cómo optamos por educar fuera de la escuela

Rafael, nosso filho mais velho, cursava o 5 ano numa escola que ajudamos a criar. Essa escola foi uma resposta à procura que iniciamos quando nos fizemos a pergunta que todo pai e mãe se fazem: e agora, como vai ser educado o nosso filho? E, claro, como todos, nós queríamos a melhor alternativa.  E quando olhávamos para as ofertas existentes no vasto mercado da educação, tanto de escolas públicas como de escolas privadas, não encontrávamos nada que se aproximasse das nossas expectativas.

Não tínhamos notícia nem conhecimento da possibilidade de educar os filhos fora da escola. Então procuramos uma escola. Queríamos uma escola que  olhasse para ele na sua singularidade. Na sua humanidade. Na sua condição de criança. E tudo que encontrava-mos era instituições equipadas para que ele se desse bem no vestibular, preocupadas com sua capacidade de competir, com dispositivos para que aprendesse a ler e escrever muito rápido, com muitos deveres de casa e uma firme disciplina.  Controles, muitos controles. E era assim, tanto nas escolas ditas construtivistas como nas outras, as que se dizem freirianas, que na verdade são apenas comportamentalistas. E claro em todas a promessa de muito...muito conteúdo.

De tanto andar pela cidade terminamos por encontrar uma escola fora do padrão. Era uma escola localizada dentro da Universidade da Paz, chamada, Casa do Sol.  Oferecia um projeto pedagógico fundamentado na Antroposofia de Rudolf Stainer, a pedagogia Waldorf. Algumas coisas nos seduziram: 1- uma escola com um projeto pedagógico com fundamento humanista; 2- a equipe de professores era competente na prática do que predicava na teoria; 3- as práticas cotidianas, os rituais de cada dia, colocavam a criança no centro das atenções de cada professor; 4- a escola era numa área verde com cachoeira e muitas árvores, 5- se ocupavam da aprendizagem e não do conteúdo; 6- sendo uma escola comunitária, os pais participávamos muito de todo o processo.

Já era o bastante. Devo reconhecer que fomos felizes na nossa escolha. Lamentavelmente, a Uni Paz, por razões que desconheço, fechou a escola.  Foi quando nasceu a atual Escola Moara, que segue os mesmos parâmetros. E pra lá foi o Rafael a continuar seus estudos. Durante alguns meses, por conta da distância ele foi parar numa escola mais perto de casa, uma escola construtivista.  Logo ele mesmo não agüentava mais as tensões típicas das escolas tradicionais: um excesso de competição entre as crianças, um excesso de controle por parte dos professores, uma escola fechada sobre si mesma sem contato com a natureza, horários próprios de uma fábrica e ainda onde o recreio era apenas no último horário, que era porque os meninos ficavam impossíveis depois dos recreios.

De volta a Moara, o Rafa foi crescendo. Porém na medida que avançava foi sentido o desconforto. A escola parecia voltada para as criancinhas mais perdia o rumo quando estas se transformavam em meninos e meninas transitando para a adolescência. As professoras eram desafiadas por esses rapazes e elas não tinham, dentro dos moldes da pedagogia Waldorf, uma resposta para o momento que eles viviam. De repente se tornou mais uma escola comportamentalista. Queriam encontrar regras que os detivessem, que os obrigassem a ficar quietos, coisas típicas, castigos, cadeados na porta, bilhetes para casa, etc, etc. Assim, as relações entre os estudantes se deterioraram e as relações entre estes e os professores chegaram a um estado realmente crítico. A escola encontrou uma solução: não abriu o sexto ano. Os meninos e meninas foram lançados ao mundo das escolas tradicionais.  Nós ficamos diante de uma porta: não ir pra escola alguma!!! Foi assim que tudo começou.

domingo, 16 de outubro de 2011

A experiência Novas Raízes  a partir do olhar consistente da Clara (nossa Sushi).

Em 2010, participei de um projeto de escola alternativa chamado Novas Raízes. Foi una experiência incrível, apesar de ( como tudo na vida ) terem havido alguns momentos de estresse. 

Nesse projeto, usávamos como referência a Escola da Ponte em Portugal, mas não era exatamente igual. Aqui nos estudávamos a partir de conteúdos diversos, onde cada um recolhia o que queria estudar. Também tinham temas onde trabalhávamos em grupos o mesmo conteudo e depois visitávamos exposições. Tínhamos três dias na semana, segunda, quarta e sexta, que eram dias de Ilumina (a chácara onde se localizava nossa escola). Lá, nos fazíamos as atividades de botânica, artes, conteúdo escolar, horta, gastronomia.

Os outros dois dias eram no Centro Olímpico da UnB, onde praticávamos vários esportes, jogos e RPJ.

Fizemos uma saída de campo para Terra Ronca, onde estudamos as cavernas, fizemos oficinas de desenho, Pim roll (máquina fotográfica com latinha). Foi muito bom poder ver e conhecer três cavernas diferentes e um monte de cachoeiras.


Adorei participar desse projeto. Gostei muito do ano que passei fazendo parte da Novas Raízes. 


Foi muito bom, agora vejo e escola de um outro jeito.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Imagens de Terra Ronca com a Novas Raízes Fev-2010













Novas Raízes - Depoimento

Duda é singular. Dura em seus juízos. Sincera. É por isso que o seu depoimento é tão interessante. Depois de um ano de viver fora da escola, ela escreveu assim:

http://www.slideshare.net/tatianaespindola/novas-razes-um-depoimento-de-desescolarizao

Mensagem aos pais depois da primeira viagem da NOVAS RAIZES a Terra Ronca – Goiás.

Como parte da experiência da Novas Raízes, a primeira semana de fevereiro de 2010, a turma realizou uma viagem a Terra Ronca. A intenção era quebrar o fluxo normal da consciência escolarizada da turma. Enquanto milhões de estudantes passariam a primeira semana do ano sentados ouvindo seus professores, os membros da Novas Raízes, viveriam uma experiência num território que os colocasse frente aos primórdios da Humanidade, Terra Ronca: Cavernas, pinturas rupestres, natureza.
O texto a seguir foi escrito na chegada da turma durante a segunda semana da experiência.

Salve amigos e irmãos das Novas Raízes,

Quero trazer a tona algumas das nossas discussões do semestre passado. Em particular, algo que foi dito sobre este primeiro momento: ele não seria fácil. Nós, os adultos passamos meses tentando esclarecer-nos...o fizemos a partir da prática do diálogo, da discussão, do debate. Foi difícil....porém nossos filhos pouco participaram efetivamente desse processo. É a vez deles viverem esse processo de esclarecer-se. Nada fácil, mais ainda se enquanto pais e mães estamos predispostos a satisfazê-los.

Eles viveram o mundo da escola tradicional durante os anos mais frágeis da auto cosnciência. Durante esse tempo suas almas foram moldadas. Penso aqui numa cena que vivemos, a Liu e eu, na casa da Leena, a noite do filme antes da partida. Na mesa de jantar ela, eu e o João Miguel discutiamos a revolta dele. E ele argumentou assim: " eu gosto de ir pra escola. Gosto de chegar, encontrar meu professor e prestar atenção a o que ele fale". Para mim essa é uma síntese: ele, e todos os outros foram apanhados pelo modelo escolar vigente. Esse é o espelho no qual eles se sentem normais, incluídos, integrados. Mais ainda na idade em que se encontram, a adolescência. Momento da vida em que lutam para desvincular-se da identificação com a mãe e entendem, ingenuamente, que o que o mundo lhes apresenta é tudo o que eles devem ser: colégio, shopping, moda, consumo, etc, etc.

Eis o nosso desafio. Eles, a diferença de nos, não estão dispostos a desconstruir o mundo. O mundo é belo para eles. E o mundo sabe que para sobreviver, precisa conquistar a alma deles. E isso, o mundo e todas as suas instituições, sabem fazer muito bem. Nosso desafio consiste em conseguir que eles possam enxergar a diferença entre eles e o mundo, que eles enxergem a singularidade deles.

Natural que estejam confundidos e desconfortáveis. Bom sintoma. Significa que de fato, estão diante de elementos que os colocam fora da sintaxe tradicional. Porém, temos que estar cientes disso, de maneira a termos o devido cuidado. O que estariam vivendo na escola tradicional, seria conhecido por todos nós. Durante as primeiras semanas estariam espreitando a cada professor perguntando-se como devem ludibria-lo, de maneira a poder fingir que aprendem e o professor poder fingir que ensina. Esse roteiro não é possível na atual circunstância. As rotinas necessárias para que isso ocorra, simplesmente foram eliminadas. Deve vir um momento de grande revolta, urgência de fuga. Como disse o Kapish, devem "tocar o terror". Em outras palavras, eles devem sentir-se fora do mundo.

Eles esperam que o professor lhes diga o que devem fazer. Nós devemos perguntar a eles o que querem fazer. Esse é o elemento fundamental. Nós não temos respostas, não temos planejamento, não temos plano formal.

Basicamente porque acreditamos que devem ser eles que devem formular as perguntas. Por isso o primeiro foi sacudí-los a partir de diversas experiências de mundo. Por isso a viagem, a UnB, a Cafuringa. Agora é o tempo de colocá-los no pior dos desconfortos: o que vocês, filhos, querem saber?, O que lhes interessa? Qual rumo desejam percorrer a partir do conhecimento?

A resposta não deve vir imediata. No começo, será irônica, mais um refugo, uma reação, um berro. Os interesses deles apareceram pequenos, ingênuos, desinteressantes. É o que corresponde as aves de voo curto. Compete a nós, tomar com extrema seriedade cada coisa positiva que eles coloquem. Cada deixa que nos dêem sobre o que lhes interessa, devemos traduzi-la em uma ponte a ser construída. Devemos ter como mostrar-lhes que uma pergunta simples acende o fogo da complexidade universal. Lança-los assim uma abundância tal de possibilidades que eles possam perceber que a escola tradicional, nunca poderia oferecer-lhes tanto. E tudo isso em meio a ludicidade, descoberta e curtição.
Façam vocês as contas: enquanto os meninos em escolas tradicionais passaram a primeira semana, ouvindo seus professores, no que corresponde a uma 25 horas. Nossos filhotes viveram 7 x 24 horas de intensidade em Terra ronca, mais horas na UnB e ainda um dia na Cafuringa. Caramba!!!

Estamos indo bem. Penso chegado o momento de coloca-los diante a necessidade de se perguntar sobre o que querem empreender como aventura de conhecimento: que pensem sobre isso, que discutam, que escrevam, que sofram um pouco com isso.

A nós cabe, estar espreitando-os, observando-os, sentindo-os, de maneira a sermos muito certeiros ao capturar dicas de por onde poderemos avançar.

Compete a nos ouvir o desconforto deles e responde-lo pertinentemente.

Dizer assim, filho, agora é com vocês, não vai ter professor pra lhes dizer nada, são vocês que devem demandar, dizer, perguntar.

Eles devem tocar o terror, sim, de uma maneira diferente: explorando interiormente até descobrirem o que os interessa. Se a resposta é, a necessidade de fuga para o ventre-escola tradicional, vamos desiludí-los: esse é o caminho fácil meu filho, mais verdadeira é você querer saber o que de fato lhe interessa.

Bom vento e bom mar, marinheiros!!!!!!!
Edilberto

Eles foram tocados pela mãe terra,
pela agua, pelo ventre das cavernas
foram abraçados pelo sol do meio dia
a lua e as estrelas beijaram seus sonhos
seus olhos caminharam milénios
sobre os traços de outros homens
e suas almas agora estão infectadas
Que venha o tempo do desconcerto
que venha o tempo inaugural
o tempo das grandes perguntas!!!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Novas Raizes

Um grupo de famílias em Brasília, cansadas de procurar escolas que atendessem as suas expectativas a respeito da educação para seus filhos decidiram reunir-se e viver uma experiência de desescolarização. Durante o segundo semestre de 2009 pensaram o que fazer. Em 2010 seus filhos viveram um ano fora da escola. Conheça diversos aspectos dessa experiência re-contados aqui.

Histórias de Desescolarização

Aqui contamos casos concretos de crianças, adolescentes ou jovens que vivem a experiência da desescolarização. O que fazem, que pensam, como se sentem, como se dão na vida. Leia os nossos post sobre este tema no Marcador: histórias de desescolarização na barra ao lado!!!