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É a escola a única instância educadora na sociedade contemporânea? É legítimo impor a toda a sociedade um único modelo educacional? Em pleno século XXI, é impossível pensar alternativas sérias ao modelo escolar? O que estão fazendo aqueles que tiveram a coragem de educar seus filhos fora da escola? Como pensar e implementar um processo sustentável de educação fora da escola?

Estas e muitas outras perguntas tem neste blog um espaço para construir respostas. Educar os filhos na sociedade do conhecimento é um desafio que supera de longe o modelo escolar...é urgente dedicar-nos coletivamente a consolidar essas alternativas.
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Avaliação escolar e a cultura da fraude

Encontramos no facebook alguns posts de jovens nos quais expressam o que sentem/pensam a respeito das avaliações na escola.  Essas pequena pesquisa revela no que dá o sistema de avaliação implementado e mantido em todo o sistema escolar. Criou-se um contra-sistema de fraudes. 

O que surpreende nos posts encontrados não é o material publicado, é o tipo de comentários e a quantidade de comentários e compartilhamentos que cada post, gera.  Por exemplo, estas imagens que demonstram um método prático de colar...suscitou mais de 2100 comentários e mais de 1000 compartilhamentos...se quisermos seguir essa onda veríamos que esses numeros vão a vários milhares.




Os comentários impressionam. A grande maioria são de celebração, agradecimento pelo compartilhamento, lamentação por não ter conhecido antes, anuncio do uso futuro da estratégia de cola, notícia de outras modalidades de cola. Em geral o humor revela um "senso comum"no qual se firma um consenso: frente as avaliações, vale tudo...o que importa é passar.







Outro aspecto comum nos comentários é a ironia frente ao sistema. A fraude parece apenas algo obvio, necessário, inteligente. Parece a resposta a uma sacanagem instituída  contra os estudantes. 

A resposta do sistema é clara: ha que criar mais e novas maneira de evitar a fraude, mais controles, mais castigos, ou até, estratégias ridículas como as que vemos nesta foto:



Se o estudante passa, se o sistema aprova, o jogo está completo. Vale a pena então agradecer a quem facilitou chegar até o feliz dia da colação de grau:


Tudo isso porque?

Por que o sistema escolar se concentra em tudo menos no processo de aprendizagem de cada estudante. Avaliar, é na realidade uma forma de dar objetividade numérica a uma exigência burocrática que é em si mesma incapaz de perceber como muda a percepção e o sentido de mundo de quem está aprendendo.

Temos que admitir: a compulsoriedade do sistema de avaliação, gera uma compulsão nos estudantes: aumenta em muito a cultura negativa do espertinho, da fraude. No final, ninguém sabe se aprendeu ou não e todos fingem que está tudo certo. Com o diploma na mão é suficiente para todos...é suficiente mesmo?


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Como posso saber que estou aprendendo 2

Capacidade de interagir numa rede de interesses

Vimos que a base de todo o processo de aprendizagem se fundamenta no domínio de diversas linguagens: corporais, estéticas, sociais, disciplinares etc. Adquirir uma linguagem nos permite ter um repertório com o qual transitar em meio de uma determinada comunidade. Nela, o elemento que cria sinergia, é o uso dessa linguagem por parte de todos os membros da mesma.

Por tanto, o segundo elemento que nos permite perceber se estamos aprendendo, se os nossos filhos estão aprendendo, é a capacidade prática de poder interagir pertinentemente dentro de uma rede de pessoas que se ocupa de determinado tema, assunto, problema, interesse, pessoas que em seus diálogos vão construindo o universo de elementos que compõem um campo de conhecimento.

Interagir pertinentemente é o que faz com que uma pessoa possa entender e ser entendido por todos aqueles que compõem a rede.  O que um aprendiz deve descobrir é que quando ele começa a aprender, ele pode perceber a existência de circuitos específicos de interesses nos quais, o uso de uma linguagem comum é uma característica. Um exemplo simples disso é,  ir a uma conferencia de advogados ou de engenheiros. Em cada uma delas, só será possível entender efetivamente do que se fala se conhecemos o linguajar deles.

Um processo educacional deve por tanto, encontrar estratégias claras para que o aprendiz, além de aprender a linguagem específica de um determinado âmbito de conhecimento, encontre os caminhos para interagir efetivamente com as pessoas que fazem parte dessa rede.

Em realidade não se trata de dois momentos separados: 1. aprender a linguagem específica; 2. Interagir numa rede de interesses. Estes dois elementos são parte do mesmo processo. Assim, ao iniciar o estudante numa determinada temática, devemos apresentar-lo diante das pessoas que constroem a rede de diálogos pertinente.  A convivência nesse novo âmbito do novato com os nativos será o ambiente de aprendizagem.

As escolas não sabem como fazer isto. Primeiro porque elas isolam a cada professor da convivência com os seus pares. Assim, o professor de matemática não tem com quem dialogar sobre matemática. O de história sempre está só. O de inglês só consegue falar em português porque nenhum outro professor sabe a língua. O de música  teria que fazer apenas solos, e assim por diante.

Cada professor vive a escola no isolamento, estão juntos dentro da escola, mais separados pelas linguagens específicas de seus campos de conhecimento. Funcionando assim, terminam eles mesmos isolados das redes de interesses nas quais deveriam interagir intensamente para poder encaminhar a os seus alunos. Uma escola que opera no isolamento não tem como conectar seus professores e estudantes às redes vivas onde o conhecimento e suas diversas linguagens é construído e compartilhado dia-a-dia.

Esse hiato que se estabelece entre a escola, os professores, os estudantes e as redes de produção de conhecimento, tem conseqüências profundas. Todos já experimentamos algumas delas ou todas: a sensação de que o conteúdo do qual tanto fala o professor caiu do céu na cabeça dele.  A idéia de que isso não está relacionado com absolutamente nada no mundo real. A sensação de que ele, o professor, quer nos convencer da importância de uma coisa da qual ninguém mais fala no mundo.  A certeza de que esse tema só interessa a ele.

Se já passou por uma ou várias dessas emoções, agora já sabe qual é a causa: só damos valor aquilo que é compartilhado por diversas atores, àquilo que faz sentido para uma rede de pessoas, e se por acaso alguma informação nos aparece descontextualizada (sem referência a uma rede de interações), então tendemos a não entender, a não dar importância, a desconsiderar. Se não sabemos com quem podemos usar determinadas informações, então, algo em nos simplesmente as elimina.

Isso explica o porquê do circuito vicioso configurado pela dinâmica entre memorização - avaliação  só tem como resultado o esquecimento.  Não a aprendizagem.

A aprendizagem é uma conseqüência do uso efetivo e pertinente que fazemos de determinadas formas de linguagem, de determinados repertórios, num contexto social no qual compartilhar tais formas é legitimo, cotidiano, consensual, corriqueiro.

Antigamente, as escolas não eram lugares onde pais matriculavam seus filhos para que ouvissem o que seus professores queriam ensinar. Eram, na verdade, redes de interesses. Diversos indivíduos interessados em entender, compartilhar, construir modos de ver o mundo, entravam em relações nas quais, a sinergia era dada pela força com que cada um interagia com os outros na construção do conhecimento a respeito daquilo que lhes interessava. Um exemplo disso é a Escola de Pitágoras, da qual  participaram matemáticos de diversas partes do mundo antigo e a qual nos deixou um legado importante.

Hoje, com a facilidade que a internet permite acessar interagir de redes sociais que discutem as mais diversas temáticas, é impensável manter um estudante isolado numa sala de aula. É anacrônico, improdutivo e sobre tudo, irresponsável. A sociedade, o mundo precisam de seres humanos que aprendam a resolver os complexos problemas que estão herdando. Em troca de manter-los isolados entre quatro paredes, temos a urgência de colocar-los em contato com as redes nas quais eles encontrarão o sentido que de fato faz o conhecimento.




terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quando posso dizer que estou aprendendo 1



Aprender diversas  linguagens


Na escola tradicional, tanto a instituição como os professores, os estudantes e mesmo os pais, acreditam que alcançar mais que 5.0 indica que o estudante aprendeu. Se essa quantidade se aproxima o máximo possível de 10.0, então se entende que ele aprendeu mais. Caramba...como é fácil medir a aprendizagem!!!

Mas, o que ocorre é que uma vez fora do sistema escolar, mesmo os que tiraram notas altas, apresentam dificuldades enormes para dizer o que foi que aprenderam, produzir mais conhecimento a partir do que aprenderam, conhecer novos produtores de conhecimento, e em fim, para viver a partir do que aprenderam. 

Assim criou-se um circuito vicioso que termina por tornar completamente inexplicável o que é aprender, como saber se está aprendendo, se o que aprendemos nos serve para algo. Todas perguntas simples que obtém respostas tão complexas e obscuras que terminam por ficar  apenas para que os especialistas em educação possam esgrimir suas equações, suas contabilidades, seus cálculos.

Concordando com Rousseau, em tempos de crise o melhor é voltar a fazer as perguntas mais básicas. Uma delas é como sei que estou aprendendo. Como sei que o meu filho está aprendendo?

Como professor e como pai, devo ter uma resposta para isso. Algo que me permita algum grau de certeza.  Algo que eu possa compreender e observar.  Como professor cansei de aplicar provas que, por mais que me esforçasse, não me permitiam saber se meus estudantes efetivamente sabiam ou não. Como pai, cansei de não saber se o meu filho está aprendendo algo. O que ocorre na escola se tornou algo tão difuso, tão escuro e silencioso que por mais que eu leia o boletim não consigo aproximar-me efetivamente do que quero. 

Por isso me lancei a observar aos meus alunos e filhos e a mim mesmo. Tentando encontrar algum elemento que me permitisse registrar um aprendizado genuíno. Comparto com vocês aqui algumas das coisas que percebi e que depois fui encontrando também em textos de alguns pesquisadores da questão:

Nós, seres humanos aprendemos linguagens. Todos somos estrangeiros de determinados campos de linguagem, por tanto temos que aprendê-los se queremos comunicar-nos com quem usa essa linguagem.  Primeiro aprendemos a linguagem facial da mãe. A linguagem corporal do pai. Os códigos complexos dessas linguagens não verbais os aprendemos deles porque convivemos com eles. Eles interagem conosco e nos vamos incorporando seus modos de mover-se, de gesticular, de afirmar, de negar, de oferecer carinho ou repreensão.  Todos já vimos aquela imagem do filho parado ao lado do pai copiando a mesma postura. Do riso da filha ser igual que o da mãe. Nos não apenas aprendemos a caminhar, aprendemos a caminhar do jeito que nossos pais caminham. Aprendemos a linguagem embutida no seu caminhar. 

Depois aprendemos não apenas seu idioma, também o seu estilo de falar, suas gírias, sua entonação, seu sotaque.  E assim continuamos pela vida. Temos que aprender a língua escrita, a linguagem da comunidade em que moramos, dos amigos do colégio. Logo, teremos que aprender a linguagem dos professores. E cada disciplina, cada matéria, não é outra coisa que um conjunto específico de elementos que configuram linguagens específicas. A matemática é uma modalidade de linguagem que se especifica em números, equações. A geografia, a história, a filosofia, a arte, se especificam cada uma em tipos de linguagem. 

Já adultos teremos que especializar-nos em um tipo de linguagem, ao qual chamaremos de profissão. Observamos isso ao falar com um profissional de uma determinada área do conhecimento. Um advogado fala numa linguagem específica, um médico também. E cada um tem uma comunidade de referência com a qual ele usa sua linguagem específica com fluência. Os demais parecem estrangeiros.  É o que ocorre quando o médico traduz nossas queixas na linguagem médica, não entendemos o que ele disse.  Por tanto, todos vivemos em determinados âmbitos de linguagem. Neles somos nativos. Porém, assim que entramos num âmbito de linguagem que desconhecemos, nos tornamos estrangeiros. Temos que ter a intermediação de uma tradução para entender o que o especialista fala.   

Somente quando aprendemos a falar como eles, quando nos tornamos nativos dessa linguagem específica é que podemos compartilhar com fluência o caudal de informações que se desencadeiam na comunicação.  Aprender, por tanto implica, tornar-se nativo de uma linguagem específica para poder comunicar-se com os usuários dessa linguagem. 

Podemos dizer que houve aprendizado, por tanto, quando um indivíduo que antes desconhecia uma linguagem específica, agora usa essa linguagem com naturalidade. Se comunica com os usuários dessa linguagem. Entende o que eles querem dizer e é entendido por eles. Se falo como matemático para os matemáticos, eles deve entender o que digo. Se estou entre advogados, eles devem fluir na minha fala. Se sou um músico, terei que entender o que os músicos expressam, e assim por diante.  Cada campo de conhecimento implica o aprendizado de uma linguagem específica. 

As palavras que significam uma coisa num âmbito específico, não significam o mesmo em outro.  E isso que causa tanta dificuldade aos novatos de um determinado âmbito de linguagem. No começo no entendem o que está sendo dito. Não conseguem comunicar apropriadamente o que gostariam de dizer. Parecem ingênuos, desfocados. Não utilizam o linguajar com consistência, com profundidade. Terão que aprender pouco a pouco as diversas camadas de sentido e significado que são usadas pelos nativos desse ambiente. 

Um professor cuidadoso deve por tanto, saber qual é o momento no qual o estudante se encontra a respeito da linguagem que ele domina. Deve estar em condições de mostrar os segredos dessa linguagem e os modos pelos quais os nativos dessa linguagem se comunicam.  O normal é que no começo o estudante não entenda o linguajar do professor.  Mas ao longo do processo, deve ocorrer uma aproximação. A linguagem do estudante deve ir ganhando um novo repertório, deve ir apropriando-se dos termos, dos conceitos, dos sentidos específicos. Deve entender as restrições de linguagem que esse âmbito implica. 

E se tudo der certo, deve terminar conversando fluidamente com seu mestre. A fronteira de linguagem entre  o estudante e o mestre se deve diluir e agora dois nativos conversam consistentemente dentro das fronteiras estabelecidas pela linguagem específica do campo de conhecimento que compartilham. 

Nesse momento deve iniciar-se o processo criativo, pois, entre humanos, a aprendizagem não fica apenas no processo de adaptação, transcende ele e vai para a criação, para a inovação. Se tudo der certo, o aluno se tornará mestre nesse campo de linguagem...o próximo poema será dele!!!