É a escola a única instância educadora na sociedade contemporânea? É legítimo impor a toda a sociedade um único modelo educacional? Em pleno século XXI, é impossível pensar alternativas sérias ao modelo escolar? O que estão fazendo aqueles que tiveram a coragem de educar seus filhos fora da escola? Como pensar e implementar um processo sustentável de educação fora da escola?

Estas e muitas outras perguntas tem neste blog um espaço para construir respostas. Educar os filhos na sociedade do conhecimento é um desafio que supera de longe o modelo escolar...é urgente dedicar-nos coletivamente a consolidar essas alternativas.

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terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Educação que coloca a criança no centro do processo


Está em qualquer projeto político-pedagógico. Faz parte de qualquer teoria minimamente interessante sobre educação. É um consenso universal e parte dos direitos da criança: ela deve ser o centro nos processos educacionais. Mas o que se constata é exatamente o contrário: as crianças vivem nas periferias do processo. Elas são apenas necessárias,  pois sem elas o sistema nem faria sentido.

O que queremos ouvir de uma instituição educacional quando matriculamos um filho é que ele será tratado em toda sua humanidade. E é isso que as instituições nos prometem. Porém, apenas o ciclo se inicia, ele se torna apenas um número, um registro, um histórico, uma contabilidade, uma quantia.  Na prática o que gostaríamos de ver é que suas necessidades de aprendizagem, suas dificuldades, seus interesses, seus ritmos, suas virtudes, seus talentos, sejam cuidadosamente observados, de maneira a receber o apoio onde é necessário e asas onde é importante.

Porém, na prática não há tempo hábil de parte de ninguém na instituição para realizar algo assim. Estão todos sempre muito ocupados.  Em que? Na produção de todos os processos institucionais. No preenchimento de todos os documentos, no lançamento de todos os dados, na vigilância de todas as disposições, no seguimento do planejamento, na cobrança de todos os regulamentos, nas disposições financeiras.

O que passa efetivamente na alma de cada criança...não alcança a atenção dos adultos que  vivem a instituição escolar.  Não por que eles assim o desejem. Mas porque toda a energia deles é esgotada pelas demandas de manutenção da instituição.  Se não fosse assim, se os atores que trabalham dentro da instituição dedicassem energia a cuidar das crianças, a instituição sucumbiria.  Se desorganizaria.  É por isso que as promessas ficam apenas no projeto político-pedagógico. Na prática, toda a energia é concentrada em viabilizar, sustentar, produzir, organizar, gestar....a instituição.

É por isso que ao propor a desescolarização como alternativa, a retirada da criança da escola é fundamental. Uma possibilidade de colocar a criança no centro do processo é fora das instituições, e por tanto, diante dos olhos dos responsáveis pela sua educação, os pais. Sejam estes os biológicos ou não. Isto não significa, em nenhum caso, o estabelecimento de um regime de confinamento dos filhos em torno dos pais. E sim, que passa pela responsabilidade dos pais, em diálogo aberto com os filhos,  a construção das múltiplas interações do processo educacional deles. (Em breve publicaremos um texto sobre diversas possibilidades de construção dessas interações com o imenso caudal dos produtores de conhecimento).

O importante é que a criança deve manter-se no centro das atenções daqueles que são responsáveis por ela. E somente como fruto desse exercício é que pode vir a acontecer o conhecimento necessário dos seus interesses, das suas necessidades, dos seus talentos.

Não é necessário um curso de pós-graduação para que isso aconteça.  Toda mãe e pai dedicados vivem essa experiência desde os primeiros momentos de vida da criança. É pela atenção que a mãe consegue entender as necessidades da criança na fase pré-oral. Criança e mãe se comunicam. Constroem conteúdos, sentidos, significados e os compartilham. A condição para que isso aconteça é a realização concentrada desse processo de observação da criança. Cada sorriso, cada choro, cada gemido é significativo. Tudo isso se perde rapidamente assim que a criança é matriculada no maternal.  Em alguns dias a mãe não consegue mais reconhecer o “linguajar “do filho(a).  O que está ouvindo, vendo, cheirando, sentindo...passa agora pelas rotinas da instituição. E  a mãe desconhece essas rotinas...pode até imaginá-las, mas nunca terá a possibilidade de compartilhá-las com a criança pois, tais rotinas não acontecem dentro de casa.

Esse processo de estranhamento se amplia nos anos subseqüentes. Dificilmente os pais conseguem acompanhar efetivamente as rotinas escolares que estão moldando cotidianamente a alma da criança. Eles, verão apenas os efeitos desse processo concretizados no documento no qual a instituição informa a situação escolar do aluno.  É impossível para os pais conversar com o filho sobre o que ocorre na escola.

Dois modos de linguagem se instauram e a criança aprende a responder a cada um deles como se fossem de fato separados.  Um compete à linguagem institucional,  outro a linguagem da vida diária.  O problema está no fato de que a linguagem institucional é fragmentária, descontinua,  descontextualizada e sobre tudo, disciplinar.  A criança passa a lidar com uma infinidade de fragmentos de informação sobre a qual ela vai ser avaliada. Memorizar os fragmentos mais importantes é tudo que conta nesse jogo. Se ela descobre isso, será entendida como  boa estudante, se não ela será entendida como desadaptada ou como mal estudante e será reprovada.

Um silencio típico invade as relações entre pais e filhos na escola. A final, quase nada do que acontece entre eles, lhe será útil na escola. E quase nada do que acontece na escola, parece útil nas relações fora dela. Os pais terminam alienados do processo que estão vivendo seus filhos e estes  começam a viver apenas para domesticar de alguma maneira a infinidade de fragmentos de informação  pelos quais suas habilidades serão avaliadas. 

A grande maioria das crianças descobre o jogo. Percebem ou se comunicam entre eles, quais são os fragmentos de informação que serão cobrados. Estes são vendidos, comprados, negociados, distribuídos, compartilhados entre eles. Então se produz o efeito final: a instituição se contenta com saber que a maioria passa nas provas. Os pais ficam felizes de receber boletins  com bons resultados e as crianças...bom...elas sabem que por enquanto vão acertando o jogo. Como efeito colateral...vem o desinteresse absoluto por aprender qualquer coisa que seja.  A final de contas, ninguém, até aí, absolutamente ninguém,  se preocupou com isso...o que cada criança efetivamente está aprendendo não é algo que passe pelas rotinas e demandas da instituição...passa a não ser parte da vida dessas crianças.

O que temos até ali: no inicio uma instituição onde um grupo de professores de diversas disciplinas revisam uma quantidade enorme de conteúdos e aplicam provas aos seus alunos. No final temos os mesmos professores e um grupo de estudantes aprovados ou reprovados.  Mas, é isso que deveríamos esperar do processo educacional?

Não. O que deveríamos ter no início seria um grupo de professores ou maestros competentes em determinados conhecimentos e um grupo de estudantes que ignoram esses conhecimentos. No final, deveríamos ter um grupo de maestros e um grupo de estudantes compartilhando seus conhecimentos. Deveríamos encontrar um diálogo entre jovens e adultos que compartem experiências a traves de diversos saberes.  Se no início temos um músico e um não músico...no final deveríamos ter dois músicos. E assim por diante com todas as disciplinas, saberes e conhecimentos.

O processo educacional deveria devolver-nos jovens que desenvolveram suas capacidades, suas habilidades, suas virtudes, seus conhecimentos. Jovens que aprenderam e que por isso, agora estão interessados em diversos assuntos, temas, problemas, possibilidades. Jovens que agora projetam suas vidas sobre os trilhos do conhecimento que incorporaram a suas vidas.

Somente então saberíamos que cada um deles foi colocado no centro do processo educacional.  






Um comentário:

  1. Olá Edilberto e Tatiana,

    Gostei do texto e também estou gostando de explorar o site. Neste texto em específico, apesar de concordar com o contexto dos malefícios da institucionalização, não consigo entender o ponto quase conflitante sobre "a criança no centro do processo".

    Em instituição de produção, tipo uma fábrica, o cliente está no centro do processo porque produzimos para ele - na instituição escola, a criança está no centro do processo porque produzimos para ela.

    A questão é que esses tipos de processo teriam que ser diferentes - em relações humanas não existe centro, existem centros. As teorias educacionais que falam de criança no centro do processo são teorias baseadas em escolarização, não no contrário.

    Tirar o filho da escola pode ser um dos caminhos, só não acho que é porque a criança vai passar a ser centro. A criança aprende na relação com os demais e estes demais tem de ser múltiplos para que a linguagem não seja a dos pais ou de tutores, mas que seja mista e, como mágica, a linguagem da própria criança. Falo um pouco sobre isso nos links abaixo:
    augusto.blog.br/ensino-casa
    augusto.blog.br/rede-comunidade

    Mais uma vez parabéns pelo site!

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