É a escola a única instância educadora na sociedade contemporânea? É legítimo impor a toda a sociedade um único modelo educacional? Em pleno século XXI, é impossível pensar alternativas sérias ao modelo escolar? O que estão fazendo aqueles que tiveram a coragem de educar seus filhos fora da escola? Como pensar e implementar um processo sustentável de educação fora da escola?

Estas e muitas outras perguntas tem neste blog um espaço para construir respostas. Educar os filhos na sociedade do conhecimento é um desafio que supera de longe o modelo escolar...é urgente dedicar-nos coletivamente a consolidar essas alternativas.

Follow by Email

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Herdeiros de Sócrates




A tensão entre educar a partir de instituições ou educar a partir da vida teve alguns dos seus episódios já na Antiguidade. Resulta interessante que esse cenário seja justamente o século V a.C., no qual floresceu o que hoje conhecemos como Grécia Clássica e nela, a figura imortal de Sócrates.

Nesse cenário histórico, Atenas está a alcançar seu momento dourado.  Se ampliam suas relações econômicas, sua prosperidade material e  cultural. A velha constituição aristocrática é substituída pela constituição democrática.  É o tempo de Péricles e da emergência do estado democrático.

Tudo isso impôs exigências à educação. Na esfera política, passou-se a reclamar da educação maior liberdade individual, de pensamento e de ação. Por outro lado, impo-se a necessidade de um treino ou habilitação do individuo para aproveitar as oportunidades sem precedentes que se ofereciam para o engrandecimento e realizações pessoais.

Na sociedade ateniense, ainda orientada pelo velho regime, não havia meios para ministrar uma educação que proporcionasse ao individuo condições de êxito pessoal. Toda a educação existente preparava apenas para o exercício cívico. Nesse contexto, apareceram os sofistas, uma forma nova professores profissionais  que deram inicio um modelo novo para a época: Os sofistas estabeleceram instituições de ensino superior que funcionavam de um modo análogo às escolas elementares. Tal como os vários professores de mousiké e gymnastiké, os sofistas lecionavam em casas, palaestrae, gymnasia ou stoas privados. Estabeleceram disciplinas e currículos. E cobravam caro pelos seus serviços e especialidades.

A palavra phrontistérion (“Pensadoria”) dada por Aristófanes a uma escola dirigida por sofistas é o reconhecimento de uma instituição ou pró-instituição. Um sofista e os seus pupilos formavam um grupo com identidade coletiva, se não corporativa, que personificava um ideal que dava regularidade a um aspecto da sociedade (educação). Assim, Os sofistas, estabeleceram os princípios de uma nova fase institucionalizada da educação superior.


Nesse contexto Sócrates marcou um contraponto ao movimento sofista.  Ele mesmo na sua juventude foi aluno deles. Porém, uma vez assumido como filósofo na acrópole ateniense, estabeleceu sem dúvida, um importante número de diferenças entre seu modo de ensinar e o dos sofistas do seu tempo.

Segundo Platão e Xenofonte, Sócrates não desenvolveu formalmente um currículo como os sofistas fizeram. Estes formaram escolas temporárias, separadas da vida da cidade e introduziram no sistema da educação antiga um segundo nível de educação formal cujo conteúdo não era necessariamente uma instrução mais avançada nos assuntos normais da escolaridade elementar, mas oferecia uma variedade de temas que diferiam de acordo com a visão educativa de cada sofista.

O ensino de Sócrates foi de fato uma “reação contra” os sofistas e a favor  de uma educação  que acontecesse através da associação (sunousia). Isto é,  em procurar que as associações de jovens na cidade fossem válidas para o seu desenvolvimento moral e incutir maiores preocupações intelectuais na existência de uma pessoa no seu dia a dia.

Tal como é descrito nos Diálogos de Platão e nos trabalhos de Xenofonte, a imagem fundamental é Sócrates caminhando em Atenas, questionando e ajudando as pessoas, na sua vida diária a pensar acerca das suas concepções, crenças e suposições básicas. Em contraste com os sofistas, Sócrates parece ter-se mantido mais próximo da noção da educação antiga, segundo a qual, depois do estádio elementar de instrução, um jovem era educado, não em qualquer tipo de escolaridade separada da cidade, mas informalmente, na vida da própria cidade.

Xenofonte relata-nos o seguinte: Sócrates saía sempre de casa ao amanhecer. Ainda manhã cedo, ia ao peripatoi e ao gymnasium. Quando o Àgora estava repleto, podíamos encontrá-lo lá. No resto do dia, estava sempre no local onde pudesse associar-se (sunesesthai) com o maior número de pessoas possível.

Assim, poder-se-ia dizer que Sócrates, ao contrário de muitos sofistas, fundou uma escola em sentido amplo, como uma associação de interesses comuns vinculados à realidade vivida dos participantes. O método socrático se tornou um modo compartilhado de produzir conhecimento por parte dos socráticos.

O Sócrates histórico se posicionou frente ao estabelecimento das instituições educacionais atenienses. Ele se recusou, deliberadamente, a fundar qualquer tipo de escola secundária que fosse separada da vida da cidade.

Ao contrário, Sócrates estava convencido que a sunousia, no contexto da vida na cidade, era a base para uma educação superior. O dialogo Téages, ainda que não seja de Platão, providencia uma indicação adicional de que Sócrates não deu instrução num contexto privado separado da vida da cidade.

Outro filósofo da antiguidade que criticou duramente as práticas sofistas foi o cínico Diógenes. Ele era hostil em relação à educação institucionalizada.

Como Sócrates, Diógenes recusou comprometer o seu ensino com qualquer lugar ou tempo, e quaisquer seguidores que tivesse não tinham identidade coletiva como um grupo de pupilos.  Famoso é o seu passeio pelo mercado da cidade onde em pleno dia ia iluminando seu caminhar com uma lâmpada. Quando lhe perguntavam para que  usar a lâmpada à luz do dia, ele respondia: “para ver tudo do que não preciso”.

Todas estas evidências apontam para a mesma conclusão. As interpretações dadas por Platão e Xenofonte sobre as práticas socráticas confirmam um aspecto fundamental do seu legado histórico: Sócrates era contra a tendência sofista de institucionalizar a educação.

Era por tanto Sócrates um precursor da idéia de que o conhecimento e a consciência fluem melhor  no cenário aberto do mundo, na cidade, na rua, dentro de casa, no trabalho, no comércio.  Ali onde a vida se realiza, onde cada um cria sentido e faz história. Isto é, a vida desescolarizada!!!!



Nenhum comentário:

Postar um comentário