É a escola a única instância educadora na sociedade contemporânea? É legítimo impor a toda a sociedade um único modelo educacional? Em pleno século XXI, é impossível pensar alternativas sérias ao modelo escolar? O que estão fazendo aqueles que tiveram a coragem de educar seus filhos fora da escola? Como pensar e implementar um processo sustentável de educação fora da escola?

Estas e muitas outras perguntas tem neste blog um espaço para construir respostas. Educar os filhos na sociedade do conhecimento é um desafio que supera de longe o modelo escolar...é urgente dedicar-nos coletivamente a consolidar essas alternativas.

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quinta-feira, 1 de março de 2012

O futuro do educador


Publiquei no facebook (https://www.facebook.com/profile.php?id=1316571587) a seguinte notícia:

Projeto prevê possibilidade de educação básica ser feita em casa Ver: http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/EDUCACAO-E-CULTURA/409783-PROJETO-PREVE-POSSIBILIDADE-DE-EDUCACAO-BASICA-SER-FEITA-EM-CASA.html

O fiz porque na notícia em formato digital há uma enquete que nos permite dizer se somos  a favor ou não. Me surpreendeu o fato de que mais de 60% dos votantes eram a favor.  De outro lado, muito rapidamente, Thiago Chaer  me perguntou: "Edilberto, diante dessa possibilidade, como você vê o futuro dos professores? Quais mudanças vão ocorrer aqui no Brasil?" Vamos lá..não é todo dia que alguém nos faz essa pergunta.  No calor do diálogo lhe respondi o seguinte:

"Thiago, obrigado pela sua pergunta. Vejo para os professores um futuro no qual, fora das atuais e históricas pressões a que vivem sub-metidos, poderão oferecer serviços os mais diversos em todos os âmbitos da sociedade, tanto a estudantes particulares como a instituições de todo tipo e a empresas. Poderão dedicar seu tempo a ser e fazer o que mais gostam que é acompanhar o aprendizado efetivo de crianças, adolescentes e jovens. Hoje isso não é possível por ter que estar cumprindo com as obrigações que o sistema lhes impõe".

Mas é claro que um tema como esse, o futuro do professor merece muita reflexão.

Primeiro, porque ainda que dizem por aí que a profissão mais antiga é a da prostituição, a verdade é outra, a mais antiga é a de educador. A final, o fato é que desde que o processo evolutivo nos transformou no que somos, o ser humano precisou aprender da geração anterior praticamente tudo para sobreviver. O primeiro Adão e a primeira Eva foram por tanto os primeiros educadores.  E desde então sempre educar e ser educado foi necessário. A história humana só alcançou o patamar atual porque uma geração após outra demandaram aprender, e sempre houve novidades para ensinar.  E outro fato, toda geração que nasce, precisa iniciar do zero. Se por acaso decidíssemos para de educar à nova geração, privá-la totalmente do acúmulo alcançado pela civilização e as culturas, essa geração seria tão ignorante como a primeira. Portanto, educadores sempre serão necessários.

Foi muito rápido na história que se instaurou a disputa entre dois tipos de educadores: os profissionais e os naturais. Estes últimos são de fato os mais antigos. São os pais!!!. E destes o lugar mais imediato corresponde a mãe. Ela, a mãe, desde sempre, ao longo dos séculos foi a primeira  educadora. Até muito pouco tempo atrás foi assim. As mães transmitiam de primeira mão o legado mais íntimo e profundo da cultura às suas crias. A linguagem materna, a estética, os axiomas profundos da cultura, a estática e a moral. Aos pais lhes correspondeu transmitir os elementos do mundo da economia, os ofícios e da política e  a arte da guerra. Isso entre muitas outras coisas, mãe pai nos ensinaram desde que somos humanos.

Quando as culturas amadureceram e deram passo às civilizações, e praticamente até o presente, se instaurou uma disputa entre os nossos educadores naturais, nossos pais, e os professores especializados.  Estes tinham acumulado uma quantidade específica de conhecimentos que muitas vezes não fazia parte dos conhecimentos adquiridos e transmitidos pelos educadores naturais. Para começar porque tais conhecimentos implicavam a escrita, a leitura e a matemática. Com o tempo foram revestidos de um manto sagrado e assim os seus detentores adquiriram uma distância intransponível a respeito de todos aqueles que careciam de tal domínio.

Foi assim com os mágicos, os sacerdotes. os filósofos, os teólogos e na última parte da história, com os cientistas. Todos eles de uma forma e outra se distanciaram dos chamados leigos e se organizaram de maneira a tornar-se absolutamente necessários. Os Estados os protegeram e ao legitimá-los terminaram por deslegitimar  tanto os educadores naturais quanto os seus saberes. Esse conflito atravessou a história das civilizações, ao ponto de chegarmos a acreditar que para educar outra pessoa é necessário ser um especialista.

Com o crescimento do conhecimento científico e a economia capitalista, a idéia de escolarizar  toda a população se tornou consensual.  A escola e por tanto, o professor especialista alcançaram um caráter universal. O educador natural, foi completamente relegado, e na medida em que o paradigma escolar se consolidou, a idéia de que só é possível educar dentro da escola tornou-se absoluta. A idéia de que o estudante chega a escola completamente ignorante parece desde então uma verdade incontestável. E ela é uma crença geral dentro das escolas. Se chega ignorante a escola.

A escola como a conhecemos e o papel do professor dentro dela estão ameaçados. Eles não sobreviverão à história. A velocidade com que se produz conhecimento, as transformações tecnológicas, a emergência de uma estrutura revolucionária de comunicação de informações, colocaram  a escola e ao professor tradicional diante de um xeque mate sem recursos possíveis.

Porém, o fator fundamental será a insatisfação generalizada que o sistema escolar provoca tanto nos pais quanto nos estudantes. Enquanto as novas gerações são demandas cada vez mais a aprender, as escolas e os professores se esforçam apenas, e nos melhores casos, para transmitir informações, revisar conteúdos, controlar disciplinarmente o comportamento dos estudantes, produzir grandes quantidades de dados estatísticos com notas e presenças. Por mais que se esforçam apenas alcançam a ser instancias burocráticas (públicas ou privadas) de certificação.

Enquanto isso, contingentes enormes de crianças, adolescentes e jovens, e seus pais, se perguntam como fazer para conciliar suas urgências de aprendizagem com as demandas de um sistema que se demonstra surdo e mudo. 

A procura por alternativas a esse sistema vem aumentando claramente nas últimas décadas. O homeschooling, o unschooling, vem de encontro às possibilidades da nova estrutura tecnológica e comunicacional. Na medida em que deter informação especializada deixou de ser uma prerrogativa de poucos, na medida em que enormes quantidades de informação de todos os tipos de conhecimento está disponível na internet e de maneira gratuita, o papel da escola e do professor especialista se tornaram desnecessários. Pouco a pouco fica claro que o modelo escolar e seus atores não conseguem mais adatatar-se aos novos tempos.  

Porém educar as novas gerações continua sendo necessário. Eles precisam ainda aprender o que seus educadores naturais lhes ensinavam. Para isso não existe nova tecnologia que os supere. O pai e a mãe continuam vigentes como atores fundamentais da educação que da base para a vida. E cada vez mais, eles os pais, devem servir de ponte para o conhecimento especializado.

Este, a diferença de qualquer outro tempo na história, não está mais concentrado em mosteiros ou castelos, nem sequer em bibliotecas. Muito menos em instituições. Hoje o conhecimento circula, se desconcentra, viaja, se difunde a uma velocidade incrível e ocupa todos os lugares no mundo. 

Num contexto como esse o papel do educador especialista tem que ser outro. O educador deve sair do seu confinamento escolar e transitar pela cidade e pelo campo, aonde quer que demandas de conhecimento sejam feitas. Ele não precisa mais escrever no quadro ou ditar o conteúdo palavra por palavra. Precisa sim saber conectar-se, transitar pelos canais por onde o conhecimento circula em abundância. Não precisa transmitir o conhecimento toda vez que hoje ele é transmitido pela estrutura tecnológica global. 

O que um professor, hoje deveria estar fazendo, facilitar o encontro entre as necessidades de conhecimento das novas gerações, das comunidades, das empresas, das instituições,  e os lugares onde esse conhecimento se transmite, se produz, se renova. Hoje, o professor, deve dedicar-se ser um animador,  um instigador, um inspirador.  Deve ir a todos os lugares, as praças, aos parques, as empresas, as ruas, às instituições públicas e privadas, nos hospitais, nos laboratórios, aonde quer que tenha pessoas de qualquer idade querendo aprender algo, o que quer que seja.  Deve entrar nos lares. Interagir com os pais, com os filhos de todas as idades, com as vizinhanças. 

A escola confinada e pequena mesmo que gigante, não tem mais espaço na história. O professor dentro dela também acabou. Mas o educador no mundo-escola, o educador na vida das pessoas reais...esse tem uma história para construir. 

3 comentários:

  1. Veja esse artigo (em inglês) na Psychology Today http://migre.me/8grVi

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  2. Obrigado Alan pela dica. Fazia tempo não lia o Peter Gray. Desta vez ler o resultado da pesquisa deles me levou a pensar no fenômeno da sincronicidade. Não existe nada que mesmo sendo muito singular ou raro, não esteja sendo vivido ou pensado ou sentido por diversas pessoas em diversos lugares do mundo. Com a desescolarização, ora a que vivemos com os filhos, ora a que vivem diversas famílias aqui no Brasil, acontecem as mesmas percepções.
    Esse elemento do compartilhar um fluxo de pensamento, de sentimento e de ação é o que nos permite perceber que algo faz sentido. O que achas, da para, nessa perspectiva, pensar a desescolarização, como uma tendência, ainda que emergente, em processo de construção?

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  3. Olá, gostaria de saber como funciona a desescolarização na prática. Como ensinam conceitos a seus filhos, teorias, com quem eles ficam para que vocês trabalhem... Sou péssima em matemática, como passaria as teorias a eles??
    Obs.: Tenho 3 filhos de 10, 8 e 4 anos. Como se conciliriam todos?

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