É a escola a única instância educadora na sociedade contemporânea? É legítimo impor a toda a sociedade um único modelo educacional? Em pleno século XXI, é impossível pensar alternativas sérias ao modelo escolar? O que estão fazendo aqueles que tiveram a coragem de educar seus filhos fora da escola? Como pensar e implementar um processo sustentável de educação fora da escola?

Estas e muitas outras perguntas tem neste blog um espaço para construir respostas. Educar os filhos na sociedade do conhecimento é um desafio que supera de longe o modelo escolar...é urgente dedicar-nos coletivamente a consolidar essas alternativas.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Como se construiu esse consenso universal em torno da escola?

Minha geração foi, talvez uma das primeiras a ser plenamente escolarizada. Entrei no jardim de infância quando tinha 3 anos de idade. Aos 6 anos iniciei a escola primaria. Com 11 anos  fui para o colégio de secundária e aos 16 anos estava formado. Aos 17 estava na Universidade. Cinco anos mais tarde era um profissional.  De 1966 a 1986 , durante 20 anos(!), ininterruptos fui a para a escola. Isso sem contar anos depois as pós-graduações e o mestrado que fiz, o que vem a somar outros 5 anos de vida. A geração dos meus pais viveu a escola apenas durante alguns anos. Minha mãe, por exemplo, apenas fez os 5 anos da primária. Minha avó e meus avô eram analfabetos. O velho Rafael aprendeu a assinar seu próprio nome  com 60 anos.

Costumo perguntar sobre esse tópico aos meus alunos nos diversos cursos universitários e de pós-graduação dos quais sou professor. É assim para a grande maioria. Eles em geral são a primeira geração a chegar à Universidade.  Isso quer dizer que o mundo escolarizado é ainda, em termos históricos uma novidade para a grande maioria da população. Porém, se a relação com a escola é relativamente nova, a relação entre a população e o conhecimento científico ainda está nos seus anos iniciais. Antiga é a relação entre qualquer ser humano e os diversos saberes. A final, é certo dizer que o ser humano tem dependido do seus saberes para fazer a sua vida ao longo de toda a história da humanidade.

Historicamente apenas grupos muito seletos da população receberam educação formal. Até a modernidade a maioria da população aprendia de maneira informal, fazendo uso dos mais diversos expedientes e processos. A escola como nos a conhecemos não existia.

A modernidade trouxe um espectro amplo de mudanças. A Revolução Industrial, um novo cenário econômico mundial, a chegada do capitalismo, as permanentes inovações nos produtos e nas tecnologias de produção. As revoluções políticas (Francesa e Americana), a nova configuração dos Estados Nação, a queda dos regimes absolutistas e a emergência dos modelos democráticos. E finalmente, a emergência da ciência como conhecimento dominante, a implantação de métodos quantitativos e empíricos,  a construção de  um grande consenso político e epistemológico para oficializar a ciência em demérito de uma gama enorme de outro tipos de conhecimento com os quais a humanidade tinha transitado ao longo de toda a sua história. Filosofia, arte, mitologia, magia, teologia, tradições,  as quais foram destituídas de legitimidade  para poder entender a ciência como o único caminho verdadeiro para a verdade.

A escola seria o lugar, o onde o projeto moderno, tanto no político, no econômico e no epistemológico, se tornaria possível.  Assim as escolas entraram no cenário histórico do 1800 ao 1900 para levar à grande massa os elementos necessários para viver no capitalismo, na democracia e na ciência. Uma racionalidade, uma lógica, uma visão de mundo, uma verdade. Entendia-se que essa seria a forma de acelerar o progresso de toda a humanidade. Logo apareceu a necessidade de escolarizar a população. Era uma decisão que levava em conta a urgência de estabelecer um novo patamar na relação com essa população. Era necessário que se adapta-se às exigências da nova economia, da nova política e do novo tipo de conhecimento, a ciência.

Foi a partir da Revolução Francesa que o modelo de escola que conhecemos hoje iniciou sua expansão até tornar-se o único possível e legítimo. Foram necessários 200 anos  para que o modelo escolar fosse universalizado.  Hoje quase todos os países contemplam leis e políticas públicas nas quais tornaram obrigatória a educação escolar para a infância e adolescência.

Durante a maior parte desses dois séculos, a escola se concentrou na educação das elites. A grande maioria da população permaneceu alheia à instituição. Nos últimos 30 anos tanto os governos quanto a população em geral, consolidaram o consenso em torno da escola. Ela se tornou em uma instituição absolutamente necessária.  Pobres e ricos, urbanos e rurais, gentes de todas as cores e crenças concordam, maioritariamente, na necessidade de levar os filhos para a escola.  Tanto os regimes revolucionários como os totalitários e ultraconservadores ostentam essa convicção.

A escola hoje é entendida como um direito universal da infância.  Único caminho para assegurar o acesso da criança à vida social, econômica, política e cultural.  Em geral, este consenso é referendado por todos os atores que compõem  o   espectro social, todos os partidos políticos (de direita, de esquerda e de centro), pela igreja, pelas universidades, pela imprensa, pelos empresários, pelas organizações não  governamentais e pelos cidadãos comuns. A escola goza de um consenso amplo é irrestrito.

Quando se ouvem críticas à escola, não é contra o modelo escolar, mais contra os elementos mal implementados desse modelo: a falta de infra-estrutura física, à falta de professores, à falta de materiais, ao desinteresse por parte dos pais e responsáveis, ao desinteresse por parte dos alunos, à falta de qualidade dos professores, à falta de verba pública, ao excessivo custo da escola particular. Mesmo as grande mobilizações estudantis, todo que pedem é que a escola seja melhorada, qualificada, gratuita, facilitada, humanizada.  Aos governos se lhes critica por não destinar mais recursos públicos para a escola, por não pagar  melhor os professores, por não aumentar o crédito universitário, por cobrar taxas excessivas de juros, etc.

Vivemos por tanto, uma certa idade média em relação à instituição escolar.  Ela é a única verdade possível e  resulta herético questioná-la. Mais...vamos lá....ela, a escola...está fora de toda questão?  Em pleno século XXI, com tudo que está acontecendo em termos de novas tecnologias, de novos conhecimentos, de novas possibilidades de acesso à informação e a aprendizagem...com tudo que está acontecendo em termos políticos, econômicos, sociais e culturais...com tudo que vemos que ocorre e não ocorre na escola...nada? Bom...é uma coisa simples... a escola enquanto modelo, é criticável e temos elementos suficientes históricos, políticos, culturais, sociológicos, pedagógicos e até didáticos para fazer essa crítica e pensar as alternativas ao modelo. Mãos à obra!!!!!



 



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