É a escola a única instância educadora na sociedade contemporânea? É legítimo impor a toda a sociedade um único modelo educacional? Em pleno século XXI, é impossível pensar alternativas sérias ao modelo escolar? O que estão fazendo aqueles que tiveram a coragem de educar seus filhos fora da escola? Como pensar e implementar um processo sustentável de educação fora da escola?

Estas e muitas outras perguntas tem neste blog um espaço para construir respostas. Educar os filhos na sociedade do conhecimento é um desafio que supera de longe o modelo escolar...é urgente dedicar-nos coletivamente a consolidar essas alternativas.

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quando posso dizer que estou aprendendo 1



Aprender diversas  linguagens


Na escola tradicional, tanto a instituição como os professores, os estudantes e mesmo os pais, acreditam que alcançar mais que 5.0 indica que o estudante aprendeu. Se essa quantidade se aproxima o máximo possível de 10.0, então se entende que ele aprendeu mais. Caramba...como é fácil medir a aprendizagem!!!

Mas, o que ocorre é que uma vez fora do sistema escolar, mesmo os que tiraram notas altas, apresentam dificuldades enormes para dizer o que foi que aprenderam, produzir mais conhecimento a partir do que aprenderam, conhecer novos produtores de conhecimento, e em fim, para viver a partir do que aprenderam. 

Assim criou-se um circuito vicioso que termina por tornar completamente inexplicável o que é aprender, como saber se está aprendendo, se o que aprendemos nos serve para algo. Todas perguntas simples que obtém respostas tão complexas e obscuras que terminam por ficar  apenas para que os especialistas em educação possam esgrimir suas equações, suas contabilidades, seus cálculos.

Concordando com Rousseau, em tempos de crise o melhor é voltar a fazer as perguntas mais básicas. Uma delas é como sei que estou aprendendo. Como sei que o meu filho está aprendendo?

Como professor e como pai, devo ter uma resposta para isso. Algo que me permita algum grau de certeza.  Algo que eu possa compreender e observar.  Como professor cansei de aplicar provas que, por mais que me esforçasse, não me permitiam saber se meus estudantes efetivamente sabiam ou não. Como pai, cansei de não saber se o meu filho está aprendendo algo. O que ocorre na escola se tornou algo tão difuso, tão escuro e silencioso que por mais que eu leia o boletim não consigo aproximar-me efetivamente do que quero. 

Por isso me lancei a observar aos meus alunos e filhos e a mim mesmo. Tentando encontrar algum elemento que me permitisse registrar um aprendizado genuíno. Comparto com vocês aqui algumas das coisas que percebi e que depois fui encontrando também em textos de alguns pesquisadores da questão:

Nós, seres humanos aprendemos linguagens. Todos somos estrangeiros de determinados campos de linguagem, por tanto temos que aprendê-los se queremos comunicar-nos com quem usa essa linguagem.  Primeiro aprendemos a linguagem facial da mãe. A linguagem corporal do pai. Os códigos complexos dessas linguagens não verbais os aprendemos deles porque convivemos com eles. Eles interagem conosco e nos vamos incorporando seus modos de mover-se, de gesticular, de afirmar, de negar, de oferecer carinho ou repreensão.  Todos já vimos aquela imagem do filho parado ao lado do pai copiando a mesma postura. Do riso da filha ser igual que o da mãe. Nos não apenas aprendemos a caminhar, aprendemos a caminhar do jeito que nossos pais caminham. Aprendemos a linguagem embutida no seu caminhar. 

Depois aprendemos não apenas seu idioma, também o seu estilo de falar, suas gírias, sua entonação, seu sotaque.  E assim continuamos pela vida. Temos que aprender a língua escrita, a linguagem da comunidade em que moramos, dos amigos do colégio. Logo, teremos que aprender a linguagem dos professores. E cada disciplina, cada matéria, não é outra coisa que um conjunto específico de elementos que configuram linguagens específicas. A matemática é uma modalidade de linguagem que se especifica em números, equações. A geografia, a história, a filosofia, a arte, se especificam cada uma em tipos de linguagem. 

Já adultos teremos que especializar-nos em um tipo de linguagem, ao qual chamaremos de profissão. Observamos isso ao falar com um profissional de uma determinada área do conhecimento. Um advogado fala numa linguagem específica, um médico também. E cada um tem uma comunidade de referência com a qual ele usa sua linguagem específica com fluência. Os demais parecem estrangeiros.  É o que ocorre quando o médico traduz nossas queixas na linguagem médica, não entendemos o que ele disse.  Por tanto, todos vivemos em determinados âmbitos de linguagem. Neles somos nativos. Porém, assim que entramos num âmbito de linguagem que desconhecemos, nos tornamos estrangeiros. Temos que ter a intermediação de uma tradução para entender o que o especialista fala.   

Somente quando aprendemos a falar como eles, quando nos tornamos nativos dessa linguagem específica é que podemos compartilhar com fluência o caudal de informações que se desencadeiam na comunicação.  Aprender, por tanto implica, tornar-se nativo de uma linguagem específica para poder comunicar-se com os usuários dessa linguagem. 

Podemos dizer que houve aprendizado, por tanto, quando um indivíduo que antes desconhecia uma linguagem específica, agora usa essa linguagem com naturalidade. Se comunica com os usuários dessa linguagem. Entende o que eles querem dizer e é entendido por eles. Se falo como matemático para os matemáticos, eles deve entender o que digo. Se estou entre advogados, eles devem fluir na minha fala. Se sou um músico, terei que entender o que os músicos expressam, e assim por diante.  Cada campo de conhecimento implica o aprendizado de uma linguagem específica. 

As palavras que significam uma coisa num âmbito específico, não significam o mesmo em outro.  E isso que causa tanta dificuldade aos novatos de um determinado âmbito de linguagem. No começo no entendem o que está sendo dito. Não conseguem comunicar apropriadamente o que gostariam de dizer. Parecem ingênuos, desfocados. Não utilizam o linguajar com consistência, com profundidade. Terão que aprender pouco a pouco as diversas camadas de sentido e significado que são usadas pelos nativos desse ambiente. 

Um professor cuidadoso deve por tanto, saber qual é o momento no qual o estudante se encontra a respeito da linguagem que ele domina. Deve estar em condições de mostrar os segredos dessa linguagem e os modos pelos quais os nativos dessa linguagem se comunicam.  O normal é que no começo o estudante não entenda o linguajar do professor.  Mas ao longo do processo, deve ocorrer uma aproximação. A linguagem do estudante deve ir ganhando um novo repertório, deve ir apropriando-se dos termos, dos conceitos, dos sentidos específicos. Deve entender as restrições de linguagem que esse âmbito implica. 

E se tudo der certo, deve terminar conversando fluidamente com seu mestre. A fronteira de linguagem entre  o estudante e o mestre se deve diluir e agora dois nativos conversam consistentemente dentro das fronteiras estabelecidas pela linguagem específica do campo de conhecimento que compartilham. 

Nesse momento deve iniciar-se o processo criativo, pois, entre humanos, a aprendizagem não fica apenas no processo de adaptação, transcende ele e vai para a criação, para a inovação. Se tudo der certo, o aluno se tornará mestre nesse campo de linguagem...o próximo poema será dele!!!






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